segunda-feira, 13 de março de 2017

Salvo-conduto para vascaínos


Troca-se de tudo hoje em dia. Profissão, cônjuge, casa, partido político, operadora de celular (bendita portabilidade) e até sexo. Reflexo talvez da modernidade líquida, para usar a expressão da moda, comum a partir dos livros de Bauman.

Há, no entanto, uma mudança jamais aceita pela nossa sociedade, que é a mudança de time. Não se ouve de ninguém que, tendo torcido por quinze anos para o Cruzeiro, agora mudou para o Palmeiras. Isso é impossível. No máximo, existe a concessão regional: torço para o Cruzeiro, mas simpatizo com o Palmeiras em São Paulo. Nesse caso, não há mudança, mas incorporação.

A escolha do time é talvez a primeira grande decisão da vida do menino. Agitado pelos vitoriosos do momento, o garoto compra a camisa do último campeão brasileiro, gosta do vencedor da Copa do Brasil, e se maravilha com a torcida do campeão estadual. Isso sem deixar de torcer para o time do pai.

Chega uma hora, porém, em que a escolha deve ser feita em definitivo. Cada família coloca seu prazo final, mas em geral ele não passa dos dez anos. É um ritual de passagem: agora, meu filho, chegou o momento de escolher seu time, sua torcida, sua paixão no mundo da bola, pense bem, pois essa decisão não tem volta e o acompanhará pelo resto de sua vida.

Dos vários tipos de infidelidade, talvez o mais repudiado socialmente seja o do vira-casaca. O sujeito que troca de time depois de atingir a idade da razão. Tipo abjeto, fraco, que se ilude pelo vencedor do momento e abandona sem pudor o time de sua infância. Merecedor de todo o tipo de escárnio de amigos e conhecidos.

Devem-se respeitar as tradições.

Mas sugiro aqui uma quebra parcial de paradigma. Proponho concedermos um salvo-conduto para que vascaínos mudem de time. Uma janela de transferência, um passe livre temporário para que os amigos cruzmaltinos possam – sem acusações, sem constrangimentos, sem hostilidades – escolher outro time para torcer. Inclusive, seria de bom alvitre se cada um pudesse dar as boas-vindas aos vascaínos, convidando-os, cada qual, ao seu respectivo time.

Acolher vascaínos é medida humanitária, à semelhança dos refugiados de guerra. São todos vítimas das circunstâncias. Mas se há problemas políticos e econômicos em receber refugiados nos países ricos, não há nenhum óbice ao acolhimento de vascaínos nos diversos times grandes do Brasil.

Como não se compadecer de torcedores que cantam, em seu grito de guerra mais famoso, sobre um “gol do Juninho no Monumental”, em 1998 (estamos em 2017!)? Três vezes rebaixado à Série B do Brasileirão nos últimos dez anos. Administração falida. O eterno vice. O Vasco da Gama se transformou em um pseudo-time, certamente um ex-grande do futebol brasileiro.

Os estaduais dos últimos anos não contam. Primeiro porque carioca não pode entrar na contabilidade dos campeonatos importantes, por razões evidentes. Depois porque foram meros deslizes em uma trajetória constante ladeira abaixo. Sobressaltos de fôlego em um doente terminal.

Alguém pode querer estender a medida aos botafoguenses. Não abramos concessões demasiadas. Os casos são diferentes.

O botafoguense é um torcedor apaixonado, embora quase sempre sofredor. O botafoguense se empolga com seu time, lota o aeroporto para receber Seedorf, cria gritos de guerra novos e vive na expectativa de contratações internacionais que resolverão o problema de elenco. Por diversas vezes possui um time bem armado, que joga bem, mas falha nas horas decisivas. A carência de títulos importantes remonta ao Túlio Maravilha de 1995. Por isso o Botafogo não entusiasma novas gerações, e está fadado ao definhamento natural quando envelhecerem seus torcedores atuais. Mas ainda assim o botafoguense torce, acompanha seu time e vibra com o futebol.

Bem diferente é o vascaíno. O vascaíno é um torcedor que não torce. É alguém que foi aposentado compulsoriamente do futebol. Às vezes triste, às vezes cabisbaixo, mas sempre indiferente.

Os mais persistentes deram de torcer para times internacionais a fim de preencher a carência: Real Madrid, Chelsea, Inter de Milão. Outros debandaram para esportes diversos, assistem NBA e fingem empolgação com o Super Bowl. Mas a maioria virou aquela espécie de desinteressado da bola, que “torce para o Brasil”, e ainda assim só na época de Copa do Mundo.

O problema é que os vascaínos gostam de futebol, e não mereciam estar nesse estado indigente. Andam pelos cantos, tímidos, desalentados. Em roda de conversa entre amigos, o vascaíno é aquele que ri, que ouve os papos de futebol, mas não se atreve a ir além, a comentar, a defender seu time. Tampouco tem ele autoridade moral para pilheriar com a derrota alheia.

Quarta-feira à noite o vascaíno liga a TV, vê o gramado verde e a bola rolando, e sente algo de bom dentro do peito – alguma reminiscência longínqua o lembra de que ele já foi feliz no futebol. Mas logo ele é trazido à dura realidade. E já não se encontram mais de três vascaínos que se reúnam para ver algum jogo do gigante da colina – não é mais atração.

A bonita camisa com a faixa vermelha pode até ser usada, mas não mais como estandarte da vitória. A última vez que os vascaínos saíram de casa orgulhosos com a camisa foi após ganharem o carioca de 2015, com a campanha “o respeito voltou”. Terminaram o ano rebaixados no Brasileirão.

Mas a situação pode mudar. Se o salvo-conduto for concedido, em breve poderemos ver amigos e parentes precocemente aposentados do futebol sorrindo novamente, frequentando estádios, participando de conversas e sentindo orgulho de seus times.


Os estaduais estão se encaminhado para o fim. Depois vem o Brasileiro. Concedendo-se o salvo-conduto, os vascaínos teriam até lá para escolher novo time, e começar o campeonato já de camisa nova e ânimo novo. Espero que todos apoiem a ideia. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Aumento na conta de luz: efeitos de uma política desastrosa


Uma das grandes bandeiras do governo Dilma foi a redução da conta de luz em 20%, anunciada em pronunciamento público no feriado de 7 de setembro de 2012. Naturalmente, o anúncio foi classificado como “eleitoreiro” pela oposição, já que foi feito a menos de um mês das eleições municipais de 2012. A redução seria viabilizada pela MP 579, de 12 de setembro, que estipulava a renovação antecipada de concessões de energia em condições tais que possibilitariam a queda na conta de luz.

O pronunciamento da presidente, no entanto, foi feito antes da conversão em lei da medida provisória. A MP 579 perderia eficácia no dia 19 de fevereiro de 2013, mas o prazo para as concessionárias aderirem às novas regras era no dia 4 de dezembro de 2012. Ou seja, as empresas poderiam aceitar a renovação antecipada das concessões, mas as regras poderiam mudar logo depois na tramitação da MP no Congresso.

Diante da insegurança jurídica, algumas concessionárias, como Cemig, Cesp e Copel, decidiram não renovar as concessões de determinadas usinas, o que comprometeu a redução de 20% da tarifa. Para garantir o prometido, o governo teve de aumentar o aporte de recursos do Tesouro. A redução da tarifa nos moldes propostos foi possibilitada com a edição da MP 605, de 24 de janeiro de 2013, o que levou Dilma a outro pronunciamento em rede nacional para anunciar a redução.

A dispersão das atividades parlamentares com o novo rito de tramitação de MPs a partir de 2012 fez com que a MP 605 só fosse votada na comissão em 15 de maio de 2013. Esse atraso custou caro. No plenário da Câmara, apesar de críticas oposicionistas de que a MP seria eleitoreira, a matéria foi aprovada. Ocorre que a MP 605 chegou ao Senado em 28 de maio, pouco menos de duas semanas após Renan Calheiros ter firmado o compromisso de não pautar nenhuma MP que chegasse com menos de 7 dias para o vencimento, depois do constrangimento da MP dos Portos. Calheiros deixou de receber a MP 605, apesar dos apelos da base.

O governo teve de recorrer a uma solução engenhosa para garantir a aprovação de sua pauta legislativa. A Ministra Gleisi Hoffmann veio a público no dia 29 de maio para afirmar que o governo garantiria a redução mediante a edição de um decreto executivo (que não necessitava da aprovação do Congresso). O Decreto nº 8.020, editado em 29 de maio de 2013, regulamentava a MP 605 (que tinha mais seis dias de vigência), estendendo por sete meses o repasse de recursos para garantir a redução. Ou seja, até o fim de 2013 a redução da conta de luz estava garantida.

Impossibilitada de editar outra MP com o mesmo teor, a saída do governo foi incorporar o texto da MP 605 no corpo da MP 609, que tratava da desoneração da cesta básica. A engenhosidade legislativa recebeu críticas e contribuiu para minar cada vez mais a atuação do governo dentro do Congresso.

O Tesouro teve de despender R$ 8,5 bilhões apenas em 2013 para arcar com a redução. Em 2014, o valor gasto foi de R$ 10,5 bilhões. A confusão no setor elétrico teve outro ingrediente. A estiagem vivida no Brasil e a crise hídrica, que atingiram seu pico em 2014, fizeram com que as usinas termoelétricas fossem acionadas para garantir o abastecimento de energia. Como a operação dessas usinas é mais cara, as empresas do setor trabalharam com prejuízo, já que não podiam repassar a conta aos consumidores.

Reeleita em 2014, Dilma promoveu mudança radical na política econômica. A nova equipe de governo constatou que a política de subsídios era insustentável diante do quadro de crise fiscal, e o governo deixou de subsidiar o setor elétrico em 2015. Como resultado, a conta de luz teve aumento de até 50%. Os impactos, evidentemente, foram refletidos na inflação do ano, e também no grande descontentamento popular, contribuindo para a crise política do ano de 2015.

Eis um caso emblemático do mau uso das medidas provisórias. Com relação à MP 579, foram cometidos dois erros claros. Primeiramente, Dilma anunciou em rede nacional de televisão a redução de 20% da conta de luz, quando tudo o que havia eram meras projeções técnicas. Apesar de ter vigência imediata, a medida provisória está sujeita a emendamento no Congresso, de maneira que o governo não pode assumir que ela será convertida em lei da forma como foi editada. Conforme se constatou que a redução seria menor, o governo passou a perseguir obsessivamente a meta de 20% para garantir o cumprimento da promessa da presidente. O impacto fiscal e político do pronunciamento precipitado, assim, prejudicou o governo.

Em segundo lugar, a MP 579 estipulou o prazo de 4 de dezembro de 2012 para que as empresas escolhessem se aceitariam a renovação antecipada das concessões de energia nos novos termos estipulados pelo governo. Ocorre que a MP teria validade até o dia 19 de fevereiro de 2013. Até lá, a matéria poderia ser modificada pelo Congresso, o que deixou as empresas inseguras para aderir ao novo modelo. O que estava em jogo eram contratos milionários a vigorar por dezenas de anos. Novamente, o governo fez mau uso das medidas provisórias ao tratar o tema dessa forma.


Os efeitos da política pública desastrosa e mal arquitetada repercutem ainda hoje. Em fevereiro de 2017, a ANEEL anunciou que as contas de luz terão aumento de até 7% para o pagamento de indenizações a empresas do setor. E tudo começou em 2012, com um anúncio no feriado da independência...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Capitão Fantástico - ode ao humanismo

Contém spoilers



Quem assiste o filme dirigido por Matt Ross e lançado em 2017 tem de início um estranhamento com a disciplina de exército empregada por Ben Cash, interpretado por Viggo Mortensen, na criação de seus filhos. A hora sagrada dos treinos, a exigência nas leituras diárias ao pé da fogueira, a brutalidade na caça e na morte dos animais, são atitudes que chocam o telespectador no conforto de sua poltrona.

O filme avança, no entanto, criando um clima de empatia com a família Cash, seja pela trilha sonora heroica, seja pelo abuso de cenas de comunhão familiar. Chega em alguns pontos a parecer um dramalhão, como na cena da cremação do corpo da mãe.

Como resultado final, Capitão Fantástico entoa uma ode ao humanismo, em uma caracterização exagerada e ingênua.

Mistura os ideais de Platão, Rousseau, Marx, Chomski e Benjamin Spock para apresentar o protótipo da família perfeita – ou pelo menos das crianças perfeitas. Crianças criadas em contato direto com a natureza, sem as convenções e prisões da sociedade. Educadas a partir de pensadores progressistas. Pais que não temem apresentar aos filhos conceitos mais profundos, que não escamoteiam a realidade em eufemismos desnecessários, mas se lançam bravamente na educação dos filhos com as armas afiadas do conhecimento humano.

O que se pode esperar de seis crianças que são criadas por seus pais isoladas do resto da humanidade em uma floresta, que não frequentam a escola, que passam o dia em treinamentos e estudos exaustivos e que desprezam os valores convencionais? O resultado é surpreendente:

Falam vários idiomas, tocam instrumentos e cantam bem, tem erudição para apreciar música clássica, desprezam os prazeres fúteis (como as marcas Nike e Adidas), possuem corpos melhor desenvolvidos, leem Dostoievski e Nabokov com fluidez, estudam de física quântica a botânica, tem grande apetite para o conhecimento, citam filósofos, meditam e mantém uma espiritualidade sadia, não criticam os outros em público (a não ser os cristãos), detém argúcia suficiente para entender as relações políticas, o mais velho foi aprovado nas melhores universidades do país, a mais nova discorre tranquilamente sobre o Bill of Rights e transborda em conhecimento sobre cidadania.  

Eis um compêndio das virtudes possíveis da humanidade! Com muitos clichês, risadas, abraços fraternais, menininhas fofas, jovens vencendo dilemas com heroísmo e stomps.

Tem-se, em síntese, crianças que refletem o ápice da raça humana. Meninos e meninas que mostram que a iluminação do conhecimento secular, o contato com a mãe natureza e o desenlace das amarras sociais são condições necessárias para nos levar, seres humanos, a um patamar mais elevado na escada da evolução.

Em contrapartida, os humanos apegados aos padrões socialmente estabelecidos são em tudo inferiores. Os meninos da cidade, como os primos, cultivam hábitos pouco saudáveis, são mimados, quase ignorantes, não gostam de aprender; já os pais protegem os filhos de conceitos difíceis, os avós se refestelam em um “luxo desnecessário” ou “riqueza vulgar”, e todos se afogam nas águas sufocantes das “religiões organizadas”, que servem apenas para impor medo e granjear a obediência cega.

Que barroco contraste entre esses dois mundos, entre essas duas criações.

No final, vence um meio termo quase forçado, tanto quanto a fuga das crianças no ônibus. Sim, criar os filhos longe da escola, no meio da floresta, é arriscado. Um humilde Ben, agora sem barba, assim conclui, e volta a morar em uma fazenda, matriculando os filhos na escola.

E é numa apoteose em nuança amarelada, quase etérea, com trilha emotiva ao fundo, que as irmãs correm abraçadas após colher verduras no quintal e ovos na granja adaptada, que os outros irmãos estudam avidamente com gosto pelo conhecimento, que o pai contempla a prole orgulhoso, que a família se senta à mesa unida para um café da manhã natural, e que o ônibus escolar afinal chega.

A mensagem é clara: não seja um maluco que cria seus filhos alheios no interior de uma floresta. Mas unir o mínimo de obrigações sociais (como ir à escola) com esse estilo de vida, é possível e desejável, vide a lista imensa das qualidades e virtudes das crianças.

O ponto mais sensível desse elogio gritante ao modo alternativo de criação de filhos é a premissa que lateja subjacente a todo filme – a autoridade do pai em educar os filhos segundo acha melhor. É com base nesse pressuposto que as crianças obedecem, que o pai alcança a disciplina e que pode desafiar avós e até o Estado.

De onde viria esse direito natural dos pais em educarem seus filhos? Segundo os autores citados pelo filme, não há qualquer base para uma moral universal, então esse pretenso direito não subsiste logicamente. Mas mesmo se aceitarmos tal premissa como válida – Ben Cash tem o direito de criar seus filhos como julgar melhor – então nos encontramos com a incômoda necessidade de aceitar outros pais que também fazem o mesmo.

Mas seria possível aceitar um cristão fazendo o mesmo, criando seus filhos longe da civilização, no meio do nada, apenas baseado na palavra de Deus? E um árabe exercendo tal direito? Nesses dois casos, o exercício legítimo da paternidade na criação dos filhos seria taxado como alienação, lavagem cerebral, e provavelmente haveria protestos de ONGs pedindo a intervenção do Estado para acabar com esse cárcere doméstico.

Em um caso, a educação alternativa é bela e produz resultados louváveis com crianças super desenvolvidas; em outro caso, essa educação alternativa é uma prisão que produz crianças alienadas e perigosas. Quem pode julgar esse impasse, ou melhor, quem diz o que é legítimo ensinar num sistema de criação de filhos alternativo? O Estado? Os filósofos? Hollywood?

A principal falácia do filme é não ter base filosófica para justificar a autoridade dos pais sobre os filhos, nem para justificar que só há “um jeito certo de ser alternativo”, por paradoxal que possa parecer.

Ademais, os dramas da criação excêntrica, na floresta, longe dos confortos e dilemas urbanos, são poucos e rasos no filme. O filho mais velho que não se dá muito bem com mulheres, o do meio que tem rompantes de ter uma vida normal como os outros, e os machucados de sua filha. Parece que o filme adota clara postura de não explorar os dramas da situação, tecendo, ao contrário, um elogio à criação humanista.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Fidel e nossa guerrilha urbana

Fidel derrubou o governo de Fulgencio Batista e implantou um governo revolucionário, não necessariamente comunista. Foi o boicote americano e a aproximação forçada com a União Soviética que levou a ilha a adotar gradualmente o sistema comunista.

Cuba, isolada na América, passou a financiar a luta armada em todo o continente. A ideia de Fidel era fazer pipocar guerrilhas por toda a América latina, e para isso treinava, financiava e apoiava guerrilheiros.

No Brasil, com a ruptura de 1964, o modelo soviético adotado pelo PCB de Luiz Carlos Prestes caiu em desgraça perante toda a esquerda, diante de sua incapacidade de reação aos militares. O modelo cubano revolucionário, então, adquiriu proeminência na esquerda brasileira. Cuba chegou a financiar Brizola, refugiado no Uruguai, a organizar a guerrilha de reação.

Um senador arrependido notou uma pequena diferença: o Brasil não era igual a Cuba. Na ilha de Castro, bastava tomar Havana a partir da Sierra Maestra que o país estava conquistado; no Brasil, organizar uma guerrilha camponesa e tomar uma ou duas cidades de nada adiantaria para conquistar o continente brasileiro.

Diante dessa constatação, a guerrilha camponesa transmutou-se, no Brasil, em guerrilha urbana. Aliou-se a organização do PCB com a radicalidade da luta armada. Carlos Marighela, líder do PCB paulista, iniciou o movimento, criando uma dissidência que levou milhares de jovens entusiasmados para a luta armada no âmbito da Ação Libertadora Nacional – ALN. Outros grupos surgiram, como o Colina, o VAR-Palmares e o MR-8.

Fidel morreu após 57 anos no comando de Cuba, anacrônico e ultrapassado, mas, por incrível que pareça, ainda é bastante atual no Brasil. E não é apenas pelo ideal heroico e pelo simbolismo rebelde de suas fotos ao lado de Che Guevara (“hasta la victoria siempre”). Há um respeito pela tática política castrista.

Na ótica hegemônica do materialismo histórico, atacar as instituições burguesas vira sinônimo de coragem e aspiração por um mundo melhor – vamos aplaudir nossos jovens que bravamente ocupam as escolas. A guerrilha urbana da década de 1970, que assaltava bancos, promovia assaltos e roubava armas, agora sobrevive numa espécie de arruaça ideologizada, de vandalismo político, mas ainda com o ideal guerrilheiro e revolucionário que remonta até Fidel Castro.

Brasília virou cenário de guerra no dia 29 de novembro. Carros foram virados e queimados, barricadas foram armadas, monumentos foram pichados e nove ministérios foram invadidos. O pretexto: a PEC do Teto dos Gastos votada no Senado. A PEC foi aprovada em primeiro turno, e será aprovada em segundo até o fim do ano.

Amanhã virá outro pretexto para protestos violentos, e mais outro no dia seguinte, mas a tática continuará a mesma: desafiar instituições burguesas: a escola, a polícia, o governo. Invasões de escolas, esfaqueamentos de policiais, depredação de patrimônio público – manifestações que estão se tornando corriqueiras, e são aplaudidas por parcela considerável da população.


Radicalismo chama radicalismo. A guerrilha urbana atraiu repressão, AI-5 e tortura. O vandalismo político de hoje ainda prospera em meio à inércia do poder público. Desde junho de 2013, criou-se no Brasil essa cultura de que manifestações populares são inatacáveis. Fecha-se o Eixo, invade-se a Alerj e depreda-se a Paulista, por qualquer motivo. Mas o dia dos confrontos violentos poderá chegar em breve. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Crivella, MC Sofia e a maioria silenciada


A abertura das Olimpíadas Rio 2016 reuniu uma variedade de artistas para mostrar a riqueza cultural da cidade. Algumas unanimidades, como Jorge Ben Jor e Caetano, outras nem tanto, como Anita e MC Sofia.

Transitando entre a bossa nova da zona sul, o samba nos morros e na passarela, o hip hop e o funk nas periferias, a cerimônia buscou apresentar uma imagem eclética de um Rio de Janeiro inclusivo. E nesse espírito foi louvada a performance de Karol Konka e MC Sofia. Apesar do quase anonimato e da qualidade musical questionável, tratava-se de representantes legítimas do Rio: duas jovens, mulheres, negras e da periferia. Como esperar algo mais representativo dessa cidade berço do samba, construída na base da escravidão, e cujas favelas compõe a silhueta da paisagem?

Se o critério foi mesmo a representatividade da população, então faltou na abertura da Rio 2016 a música gospel entoada em alguma igrejinha pentecostal da periferia.

Saindo do campo artístico para o político, a eleição de Marcelo Crivella para a prefeitura escancarou esse abismo entre maioria da população e representatividade efetiva.

Aliás, não foi um ponto fora da curva na história da ex-capital do império. Basta voltar dois anos atrás e analisar a preferência dos eleitores fluminenses nas eleições de 2010 para o cargo de deputado federal:

Primeiro mais votado: Jair Bolsonaro, com 464 mil votos.
Segundo mais votado: Clarissa Garotinho, com 335 mil votos.
Terceiro mais votado: Eduardo Cunha, com 232 mil votos.

Todos os três são políticos conservadores, sendo que os dois últimos frequentam igrejas evangélicas. Agora, com a eleição de Crivella, quase 60% do município do Rio escolheu como prefeito um bispo da Igreja Universal.

Há nos círculos intelectuais e acadêmicos uma repulsa mais ou menos consensual sobre o que se enxerga como “onda conservadora”, ou seja, um fenômeno popular que executa ideias fascistas e coloca em risco direitos fundamentais. Sob o viés dessa lente, cabe reunir as forças progressistas e “de bem” para lutar contra o avanço desse exército inimigo, com o qual não há diálogo.

Cria-se uma polarização radicalizada. De um lado, o avanço consistente de partidos de direita, de ideias conservadoras e, em alguma medida, do discurso religioso. Do outro, uma repulsa irreconciliável com essas ideias e uma tentativa pueril de ignorá-las como um fenômeno real.

A dicotomia não se restringe ao Brasil. Na Europa, por exemplo, a questão migratória e a saída do Reino Unido da União Europeia mostram outra faceta da discussão. No caso, observa-se em um dos polos o crescimento do nacionalismo, dos partidos de direita e uma crítica às políticas migratórias; no outro polo, uma vertente humanitária, inclusiva, “do bem”, que faz uma crítica ferrenha, agressiva e com ares de superioridade ao outro lado.   

Aí mora o perigo. Grupos populares sem voz ou representação política são o ingrediente para a aparição de demagogos. Trump está aí para provar. Um dos slogans de sua campanha era: “The silent majority stays with Trump” – “A maioria silenciosa está com Trump”. A força política de minorias organizadas muitas vezes esmaga uma maioria que fica silenciada e suscetível ao discurso não raro irresponsável de políticos oportunistas. 

De todo modo, o fenômeno está posto. Apesar de se defender a representatividade simbólica de MC Sofia e Karol Konka, o fato é que Crivella foi eleito prefeito do Rio. Tratar a eleição do bispo com chilique e empáfia não ajuda no diálogo político.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Dilma e Cunha – a rivalidade que incendiou a política


A política brasileira assistiu ao desfecho de um dos embates mais lendários dos últimos tempos: a rivalidade entre Dilma Rousseff e Eduardo Cunha, que produziu o impeachment da presidente da república, o afastamento e cassação do presidente da Câmara e uma crise política monumental.

O final explosivo do confronto era previsível, embora não fosse crível que os dois o levassem às últimas consequências. Era janeiro de 2015, e o gabinete da liderança do PMDB na Câmara estava em alvoroço. Cunha estava em campanha para a presidência da Câmara, mas naquele dia ouviu a notícia de que o Planalto se empenharia na candidatura de Arlindo Chinaglia, do PT. Era uma clara declaração de guerra entre PT e PMDB, mas mais especificamente entre Dilma e Cunha.

A agitação das pessoas no gabinete da liderança lembrava a mobilização para a guerra, e a ordem do comandante foi dita por algum dos assessores: “Cunha disse que vai cair atirando”. Pois nessa guerra entre dois atores com vocação para kamikaze, morreram os dois, Dilma e Cunha.

As desavenças começaram lá atrás, quando Dilma e Cunha se estranhavam em razão de indicações do deputado para a diretoria de Furnas. Quando se tornou presidente em 2011, uma das primeiras ações de Dilma foi expurgar o PMDB de vários cargos de segundo escalão, dentre os quais as diretorias de Furnas. A partir daí, os dois já não escondiam de ninguém a antipatia recíproca.

Em 2013, o embate se tornou mais agressivo, e Dilma tentou barrar a eleição de Cunha para a liderança do PMDB, apoiando discretamente a candidatura de Sandro Mabel. Sem sucesso. Cunha foi eleito líder e usou todo o poder da liderança para verbalizar o descontentamento com o governo. Em 2014, encabeçou a ala peemedebista que defendia o fim da aliança com o PT, mas acabou derrotado na convenção do partido que consagrou, pela segunda vez, Temer como candidato a vice. Ainda no final de 2014, em retaliação, Cunha reuniu um grupo de partidos insatisfeitos com o Planalto para atuação independente do governo, chamado naquela época de “blocão” (o antecessor do “centrão” de hoje). 

Chegou 2015 e veio o contra-ataque de Dilma, com o apoio explícito e intenso à candidatura de Chinaglia. A vitória de Cunha em primeiro turno sacramentou a superioridade de articulação política do deputado em comparação com a presidente, O ano se desenrolou e com ele a representação no Conselho de Ética e os gritos de impeachment vindos das ruas amarraram Dilma e Cunha em um mesmo destino. Ou se salvavam ambos num acordo espúrio, num conchavo entre inimigos para preservar o sistema, ou os dois iriam para o confronto, cada um à sua própria sorte. Escolheram a última alternativa, e acabaram fulminados pelo Congresso.

O enredo da trama conferiu contornos hollywoodianos aos personagens, criando arquétipos quase perfeitos do herói e do vilão. Em uma versão da história, Dilma é a heroína lídima que empunha lanças contra um sistema político perverso dominado por Eduardo Cunha e seus aliados. Recusa indicações políticas para cargos técnicos e se nega a fazer barganhas com corruptos, e por esse caráter puro caiu em uma emboscada, sendo a vítima injustiçada no processo de impeachment, enquanto Cunha é o vilão maquiavélico que tramou tudo de seu gabinete.

Mas há uma história alternativa celebrada na Câmara. Nela, Cunha não aparece propriamente como herói, mas como anti-herói, o personagem que combate o mal sem pretensão de pureza, mas com todos seus defeitos, vícios e negócios ocultos – afinal, quem não os têm? O heroísmo de Cunha foi levantar-se contra a dominação do Executivo, recobrando o protagonismo ao parlamento. Elevou o brio dos deputados ao negar subserviência aos comandos do governo, fazendo o Legislativo criar agenda própria. E, principalmente, enfrentou a anomalia política chamada Dilma Rousseff, que tem ojeriza assumida de parlamentares, que se nega a sentar para conversar com aliados, que centraliza decisões e que ordena ao invés de negociar.

Versões à parte, ninguém em Brasília acredita em ficção. Na realidade crua da capital, cada personagem carrega consigo uma lista de boas obras tanto quanto uma coleção de maus feitos, não sobrando espaço para os papeis de herói ou vilão. Todos do mundo político sabem disso, mas preferem se escorar nas narrativas do bem contra o mal para justificarem votos e escolhas. A tática, aliás, tem dado certo, já que a cultura do messianismo persiste forte entre os brasileiros, que erigem para si santos e demônios no altar da política.

No entanto, ao retirar o aspecto de drama simplista que traça papeis bem definidos para os personagens, ainda sobra uma história digna de compor a antologia política brasileira: o embate entre dois inimigos que incendiou a política no Brasil.

Dilma e Cunha, ambos temperamentais, se vivessem o conflito entre EUA e URSS na guerra fria, e tivessem posição de poder, teriam explodido o mundo. Mas vivendo no Brasil do século XXI ajudaram a criar uma das maiores crises políticas, produzindo um impeachment e a cassação do presidente da Câmara. Talvez tenha sido melhor assim.

O que fica de tudo, no entanto, além do roteiro pronto para uma série Netflix, é a possibilidade de novas Dilmas e novos Cunhas. Cunha é a antítese de Dilma, e só ganhou visibilidade e poder graças à total falta de tino político da presidente. Ocorre que o presidencialismo no Brasil continua aberto para aventureiros como Dilma...

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Impeachment - idas e vindas políticas



De novo a China: 

O Congresso rejeitou a posse do Vice João Goulart em 1961 porque ele estava na China comunista.
Em 2016, o Vice Temer foi empossado às pressas justamente para viajar para a China capitalista, que recebe reunião das 20 maiores economias do mundo. 

Em 1992: 
Em 1992, as Olimpíadas eram disputadas em Barcelona, Neymar acabava de nascer, Romário era jogador pelo PSV, Lindbergh era líder estudantil, Sérgio Moro era estudante de direito e Bonner e Fátima tinham dois anos de casados. 

Baianos: 
Na Câmara, Bahia, Ceará e Amapá foram os únicos estados onde venceu o voto contrário ao impeachment. Já no Senado, apenas a Bahia. 

1954, 1964, 1992, 2016: 

Muitos senadores quiseram reviver momentos passados como se a história se repetisse. 
Requião leu a carta-testamento de Getúlio Vargas evocando a similaridade do momento. Mas Dilma não se suicidou e ao invés de carta pretende deixar um documentário.
Lindbergh tentou repetir os gritos de "Canalha" que Tancredo dirigia a Auro de Moura Andrade em 1964, quando esse declarou vaga a presidência da república. Mas em 2016 quem estava presidindo era o Presidente do STF e o processo de impeachment durou 9 meses... 
Collor contou sua experiência de impeachment em 1992 por diversas vezes e disse que o governo de Dilma era uma "tragédia anunciada" e que houve dois pesos e duas medidas. 

Centro-Oeste: 

No Senado, a coesão total pró-impeachment foi vista em todos os estados do Centro-Oeste: DF, GO, MT e MS. No Sudeste, só faltou Rio de Janeiro.  

PMDB no comando: 

Em 1992, o comando do Congresso durante o impeachment estava nas mãos do PMDB, com o deputado Ibsen Pinheiro na Câmara e Mauro Benevides no Senado. Em 2016 também. Eduardo Cunha na Câmara e Renan Calheiros no Senado. 

Tiro no pé: 

A possibilidade de fatiar o julgamento de Dilma veio de uma mudança no Regimento do Senado promovida pelo Senador Ronaldo Caiado em março de 2016 - a inclusão do destaque de bancada. Se não houvesse a alteração, o destaque deveria ser precedido de votação por sua admissibilidade, em maioria simples, e certamente seria rejeitado. 

Governo dividido: 
Desde que as eleições para presidente e para o Congresso passaram a ser disputadas no mesmo ano, em 1994, nunca um partido comandou Presidência da República, Câmara e Senado ao mesmo tempo. O PMDB chegou bem próximo, e teria o comando das três instâncias caso Cunha não tivesse sido afastado da presidência da Câmara.  

Café com leite: 

Desde a redemocratização, São Paulo e Minas ainda dão as caras na política. Os presidentes que não eram dos dois estados (Collor - Alagoas; e Dilma - Rio Grande do Sul) sofreram impeachment. Já FHC e Lula, ambos de São Paulo, terminaram seus mandatos. Tancredo era de Minas, mas morreu antes da posse, fazendo do maranhense Sarney a exceção. 

O número: 

13, o número escondido das campanhas, foi exatamente o número de anos do PT na presidência da república.

Maioria:

Somados os 347 votos na Câmara e os 61 votos no Senado, há uma maioria de quase 70% do Congresso que quer a saída de Dilma. 

Vai ter luta?
Diz-se que Dilma é valente porque lutou por seus ideais contra o golpe de 1964. Mas se há golpe em 2016 ela também irá pegar em armas? Ela se excedeu no passado ou se acovardou no presente?