quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Capitão Fantástico - ode ao humanismo

Contém spoilers



Quem assiste o filme dirigido por Matt Ross e lançado em 2017 tem de início um estranhamento com a disciplina de exército empregada por Ben Cash, interpretado por Viggo Mortensen, na criação de seus filhos. A hora sagrada dos treinos, a exigência nas leituras diárias ao pé da fogueira, a brutalidade na caça e na morte dos animais, são atitudes que chocam o telespectador no conforto de sua poltrona.

O filme avança, no entanto, criando um clima de empatia com a família Cash, seja pela trilha sonora heroica, seja pelo abuso de cenas de comunhão familiar. Chega em alguns pontos a parecer um dramalhão, como na cena da cremação do corpo da mãe.

Como resultado final, Capitão Fantástico entoa uma ode ao humanismo, em uma caracterização exagerada e ingênua.

Mistura os ideais de Platão, Rousseau, Marx, Chomski e Benjamin Spock para apresentar o protótipo da família perfeita – ou pelo menos das crianças perfeitas. Crianças criadas em contato direto com a natureza, sem as convenções e prisões da sociedade. Educadas a partir de pensadores progressistas. Pais que não temem apresentar aos filhos conceitos mais profundos, que não escamoteiam a realidade em eufemismos desnecessários, mas se lançam bravamente na educação dos filhos com as armas afiadas do conhecimento humano.

O que se pode esperar de seis crianças que são criadas por seus pais isoladas do resto da humanidade em uma floresta, que não frequentam a escola, que passam o dia em treinamentos e estudos exaustivos e que desprezam os valores convencionais? O resultado é surpreendente:

Falam vários idiomas, tocam instrumentos e cantam bem, tem erudição para apreciar música clássica, desprezam os prazeres fúteis (como as marcas Nike e Adidas), possuem corpos melhor desenvolvidos, leem Dostoievski e Nabokov com fluidez, estudam de física quântica a botânica, tem grande apetite para o conhecimento, citam filósofos, meditam e mantém uma espiritualidade sadia, não criticam os outros em público (a não ser os cristãos), detém argúcia suficiente para entender as relações políticas, o mais velho foi aprovado nas melhores universidades do país, a mais nova discorre tranquilamente sobre o Bill of Rights e transborda em conhecimento sobre cidadania.  

Eis um compêndio das virtudes possíveis da humanidade! Com muitos clichês, risadas, abraços fraternais, menininhas fofas, jovens vencendo dilemas com heroísmo e stomps.

Tem-se, em síntese, crianças que refletem o ápice da raça humana. Meninos e meninas que mostram que a iluminação do conhecimento secular, o contato com a mãe natureza e o desenlace das amarras sociais são condições necessárias para nos levar, seres humanos, a um patamar mais elevado na escada da evolução.

Em contrapartida, os humanos apegados aos padrões socialmente estabelecidos são em tudo inferiores. Os meninos da cidade, como os primos, cultivam hábitos pouco saudáveis, são mimados, quase ignorantes, não gostam de aprender; já os pais protegem os filhos de conceitos difíceis, os avós se refestelam em um “luxo desnecessário” ou “riqueza vulgar”, e todos se afogam nas águas sufocantes das “religiões organizadas”, que servem apenas para impor medo e granjear a obediência cega.

Que barroco contraste entre esses dois mundos, entre essas duas criações.

No final, vence um meio termo quase forçado, tanto quanto a fuga das crianças no ônibus. Sim, criar os filhos longe da escola, no meio da floresta, é arriscado. Um humilde Ben, agora sem barba, assim conclui, e volta a morar em uma fazenda, matriculando os filhos na escola.

E é numa apoteose em nuança amarelada, quase etérea, com trilha emotiva ao fundo, que as irmãs correm abraçadas após colher verduras no quintal e ovos na granja adaptada, que os outros irmãos estudam avidamente com gosto pelo conhecimento, que o pai contempla a prole orgulhoso, que a família se senta à mesa unida para um café da manhã natural, e que o ônibus escolar afinal chega.

A mensagem é clara: não seja um maluco que cria seus filhos alheios no interior de uma floresta. Mas unir o mínimo de obrigações sociais (como ir à escola) com esse estilo de vida, é possível e desejável, vide a lista imensa das qualidades e virtudes das crianças.

O ponto mais sensível desse elogio gritante ao modo alternativo de criação de filhos é a premissa que lateja subjacente a todo filme – a autoridade do pai em educar os filhos segundo acha melhor. É com base nesse pressuposto que as crianças obedecem, que o pai alcança a disciplina e que pode desafiar avós e até o Estado.

De onde viria esse direito natural dos pais em educarem seus filhos? Segundo os autores citados pelo filme, não há qualquer base para uma moral universal, então esse pretenso direito não subsiste logicamente. Mas mesmo se aceitarmos tal premissa como válida – Ben Cash tem o direito de criar seus filhos como julgar melhor – então nos encontramos com a incômoda necessidade de aceitar outros pais que também fazem o mesmo.

Mas seria possível aceitar um cristão fazendo o mesmo, criando seus filhos longe da civilização, no meio do nada, apenas baseado na palavra de Deus? E um árabe exercendo tal direito? Nesses dois casos, o exercício legítimo da paternidade na criação dos filhos seria taxado como alienação, lavagem cerebral, e provavelmente haveria protestos de ONGs pedindo a intervenção do Estado para acabar com esse cárcere doméstico.

Em um caso, a educação alternativa é bela e produz resultados louváveis com crianças super desenvolvidas; em outro caso, essa educação alternativa é uma prisão que produz crianças alienadas e perigosas. Quem pode julgar esse impasse, ou melhor, quem diz o que é legítimo ensinar num sistema de criação de filhos alternativo? O Estado? Os filósofos? Hollywood?

A principal falácia do filme é não ter base filosófica para justificar a autoridade dos pais sobre os filhos, nem para justificar que só há “um jeito certo de ser alternativo”, por paradoxal que possa parecer.

Ademais, os dramas da criação excêntrica, na floresta, longe dos confortos e dilemas urbanos, são poucos e rasos no filme. O filho mais velho que não se dá muito bem com mulheres, o do meio que tem rompantes de ter uma vida normal como os outros, e os machucados de sua filha. Parece que o filme adota clara postura de não explorar os dramas da situação, tecendo, ao contrário, um elogio à criação humanista.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Fidel e nossa guerrilha urbana

Fidel derrubou o governo de Fulgencio Batista e implantou um governo revolucionário, não necessariamente comunista. Foi o boicote americano e a aproximação forçada com a União Soviética que levou a ilha a adotar gradualmente o sistema comunista.

Cuba, isolada na América, passou a financiar a luta armada em todo o continente. A ideia de Fidel era fazer pipocar guerrilhas por toda a América latina, e para isso treinava, financiava e apoiava guerrilheiros.

No Brasil, com a ruptura de 1964, o modelo soviético adotado pelo PCB de Luiz Carlos Prestes caiu em desgraça perante toda a esquerda, diante de sua incapacidade de reação aos militares. O modelo cubano revolucionário, então, adquiriu proeminência na esquerda brasileira. Cuba chegou a financiar Brizola, refugiado no Uruguai, a organizar a guerrilha de reação.

Um senador arrependido notou uma pequena diferença: o Brasil não era igual a Cuba. Na ilha de Castro, bastava tomar Havana a partir da Sierra Maestra que o país estava conquistado; no Brasil, organizar uma guerrilha camponesa e tomar uma ou duas cidades de nada adiantaria para conquistar o continente brasileiro.

Diante dessa constatação, a guerrilha camponesa transmutou-se, no Brasil, em guerrilha urbana. Aliou-se a organização do PCB com a radicalidade da luta armada. Carlos Marighela, líder do PCB paulista, iniciou o movimento, criando uma dissidência que levou milhares de jovens entusiasmados para a luta armada no âmbito da Ação Libertadora Nacional – ALN. Outros grupos surgiram, como o Colina, o VAR-Palmares e o MR-8.

Fidel morreu após 57 anos no comando de Cuba, anacrônico e ultrapassado, mas, por incrível que pareça, ainda é bastante atual no Brasil. E não é apenas pelo ideal heroico e pelo simbolismo rebelde de suas fotos ao lado de Che Guevara (“hasta la victoria siempre”). Há um respeito pela tática política castrista.

Na ótica hegemônica do materialismo histórico, atacar as instituições burguesas vira sinônimo de coragem e aspiração por um mundo melhor – vamos aplaudir nossos jovens que bravamente ocupam as escolas. A guerrilha urbana da década de 1970, que assaltava bancos, promovia assaltos e roubava armas, agora sobrevive numa espécie de arruaça ideologizada, de vandalismo político, mas ainda com o ideal guerrilheiro e revolucionário que remonta até Fidel Castro.

Brasília virou cenário de guerra no dia 29 de novembro. Carros foram virados e queimados, barricadas foram armadas, monumentos foram pichados e nove ministérios foram invadidos. O pretexto: a PEC do Teto dos Gastos votada no Senado. A PEC foi aprovada em primeiro turno, e será aprovada em segundo até o fim do ano.

Amanhã virá outro pretexto para protestos violentos, e mais outro no dia seguinte, mas a tática continuará a mesma: desafiar instituições burguesas: a escola, a polícia, o governo. Invasões de escolas, esfaqueamentos de policiais, depredação de patrimônio público – manifestações que estão se tornando corriqueiras, e são aplaudidas por parcela considerável da população.


Radicalismo chama radicalismo. A guerrilha urbana atraiu repressão, AI-5 e tortura. O vandalismo político de hoje ainda prospera em meio à inércia do poder público. Desde junho de 2013, criou-se no Brasil essa cultura de que manifestações populares são inatacáveis. Fecha-se o Eixo, invade-se a Alerj e depreda-se a Paulista, por qualquer motivo. Mas o dia dos confrontos violentos poderá chegar em breve. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Crivella, MC Sofia e a maioria silenciada


A abertura das Olimpíadas Rio 2016 reuniu uma variedade de artistas para mostrar a riqueza cultural da cidade. Algumas unanimidades, como Jorge Ben Jor e Caetano, outras nem tanto, como Anita e MC Sofia.

Transitando entre a bossa nova da zona sul, o samba nos morros e na passarela, o hip hop e o funk nas periferias, a cerimônia buscou apresentar uma imagem eclética de um Rio de Janeiro inclusivo. E nesse espírito foi louvada a performance de Karol Konka e MC Sofia. Apesar do quase anonimato e da qualidade musical questionável, tratava-se de representantes legítimas do Rio: duas jovens, mulheres, negras e da periferia. Como esperar algo mais representativo dessa cidade berço do samba, construída na base da escravidão, e cujas favelas compõe a silhueta da paisagem?

Se o critério foi mesmo a representatividade da população, então faltou na abertura da Rio 2016 a música gospel entoada em alguma igrejinha pentecostal da periferia.

Saindo do campo artístico para o político, a eleição de Marcelo Crivella para a prefeitura escancarou esse abismo entre maioria da população e representatividade efetiva.

Aliás, não foi um ponto fora da curva na história da ex-capital do império. Basta voltar dois anos atrás e analisar a preferência dos eleitores fluminenses nas eleições de 2010 para o cargo de deputado federal:

Primeiro mais votado: Jair Bolsonaro, com 464 mil votos.
Segundo mais votado: Clarissa Garotinho, com 335 mil votos.
Terceiro mais votado: Eduardo Cunha, com 232 mil votos.

Todos os três são políticos conservadores, sendo que os dois últimos frequentam igrejas evangélicas. Agora, com a eleição de Crivella, quase 60% do município do Rio escolheu como prefeito um bispo da Igreja Universal.

Há nos círculos intelectuais e acadêmicos uma repulsa mais ou menos consensual sobre o que se enxerga como “onda conservadora”, ou seja, um fenômeno popular que executa ideias fascistas e coloca em risco direitos fundamentais. Sob o viés dessa lente, cabe reunir as forças progressistas e “de bem” para lutar contra o avanço desse exército inimigo, com o qual não há diálogo.

Cria-se uma polarização radicalizada. De um lado, o avanço consistente de partidos de direita, de ideias conservadoras e, em alguma medida, do discurso religioso. Do outro, uma repulsa irreconciliável com essas ideias e uma tentativa pueril de ignorá-las como um fenômeno real.

A dicotomia não se restringe ao Brasil. Na Europa, por exemplo, a questão migratória e a saída do Reino Unido da União Europeia mostram outra faceta da discussão. No caso, observa-se em um dos polos o crescimento do nacionalismo, dos partidos de direita e uma crítica às políticas migratórias; no outro polo, uma vertente humanitária, inclusiva, “do bem”, que faz uma crítica ferrenha, agressiva e com ares de superioridade ao outro lado.   

Aí mora o perigo. Grupos populares sem voz ou representação política são o ingrediente para a aparição de demagogos. Trump está aí para provar. Um dos slogans de sua campanha era: “The silent majority stays with Trump” – “A maioria silenciosa está com Trump”. A força política de minorias organizadas muitas vezes esmaga uma maioria que fica silenciada e suscetível ao discurso não raro irresponsável de políticos oportunistas. 

De todo modo, o fenômeno está posto. Apesar de se defender a representatividade simbólica de MC Sofia e Karol Konka, o fato é que Crivella foi eleito prefeito do Rio. Tratar a eleição do bispo com chilique e empáfia não ajuda no diálogo político.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Dilma e Cunha – a rivalidade que incendiou a política


A política brasileira assistiu ao desfecho de um dos embates mais lendários dos últimos tempos: a rivalidade entre Dilma Rousseff e Eduardo Cunha, que produziu o impeachment da presidente da república, o afastamento e cassação do presidente da Câmara e uma crise política monumental.

O final explosivo do confronto era previsível, embora não fosse crível que os dois o levassem às últimas consequências. Era janeiro de 2015, e o gabinete da liderança do PMDB na Câmara estava em alvoroço. Cunha estava em campanha para a presidência da Câmara, mas naquele dia ouviu a notícia de que o Planalto se empenharia na candidatura de Arlindo Chinaglia, do PT. Era uma clara declaração de guerra entre PT e PMDB, mas mais especificamente entre Dilma e Cunha.

A agitação das pessoas no gabinete da liderança lembrava a mobilização para a guerra, e a ordem do comandante foi dita por algum dos assessores: “Cunha disse que vai cair atirando”. Pois nessa guerra entre dois atores com vocação para kamikaze, morreram os dois, Dilma e Cunha.

As desavenças começaram lá atrás, quando Dilma e Cunha se estranhavam em razão de indicações do deputado para a diretoria de Furnas. Quando se tornou presidente em 2011, uma das primeiras ações de Dilma foi expurgar o PMDB de vários cargos de segundo escalão, dentre os quais as diretorias de Furnas. A partir daí, os dois já não escondiam de ninguém a antipatia recíproca.

Em 2013, o embate se tornou mais agressivo, e Dilma tentou barrar a eleição de Cunha para a liderança do PMDB, apoiando discretamente a candidatura de Sandro Mabel. Sem sucesso. Cunha foi eleito líder e usou todo o poder da liderança para verbalizar o descontentamento com o governo. Em 2014, encabeçou a ala peemedebista que defendia o fim da aliança com o PT, mas acabou derrotado na convenção do partido que consagrou, pela segunda vez, Temer como candidato a vice. Ainda no final de 2014, em retaliação, Cunha reuniu um grupo de partidos insatisfeitos com o Planalto para atuação independente do governo, chamado naquela época de “blocão” (o antecessor do “centrão” de hoje). 

Chegou 2015 e veio o contra-ataque de Dilma, com o apoio explícito e intenso à candidatura de Chinaglia. A vitória de Cunha em primeiro turno sacramentou a superioridade de articulação política do deputado em comparação com a presidente, O ano se desenrolou e com ele a representação no Conselho de Ética e os gritos de impeachment vindos das ruas amarraram Dilma e Cunha em um mesmo destino. Ou se salvavam ambos num acordo espúrio, num conchavo entre inimigos para preservar o sistema, ou os dois iriam para o confronto, cada um à sua própria sorte. Escolheram a última alternativa, e acabaram fulminados pelo Congresso.

O enredo da trama conferiu contornos hollywoodianos aos personagens, criando arquétipos quase perfeitos do herói e do vilão. Em uma versão da história, Dilma é a heroína lídima que empunha lanças contra um sistema político perverso dominado por Eduardo Cunha e seus aliados. Recusa indicações políticas para cargos técnicos e se nega a fazer barganhas com corruptos, e por esse caráter puro caiu em uma emboscada, sendo a vítima injustiçada no processo de impeachment, enquanto Cunha é o vilão maquiavélico que tramou tudo de seu gabinete.

Mas há uma história alternativa celebrada na Câmara. Nela, Cunha não aparece propriamente como herói, mas como anti-herói, o personagem que combate o mal sem pretensão de pureza, mas com todos seus defeitos, vícios e negócios ocultos – afinal, quem não os têm? O heroísmo de Cunha foi levantar-se contra a dominação do Executivo, recobrando o protagonismo ao parlamento. Elevou o brio dos deputados ao negar subserviência aos comandos do governo, fazendo o Legislativo criar agenda própria. E, principalmente, enfrentou a anomalia política chamada Dilma Rousseff, que tem ojeriza assumida de parlamentares, que se nega a sentar para conversar com aliados, que centraliza decisões e que ordena ao invés de negociar.

Versões à parte, ninguém em Brasília acredita em ficção. Na realidade crua da capital, cada personagem carrega consigo uma lista de boas obras tanto quanto uma coleção de maus feitos, não sobrando espaço para os papeis de herói ou vilão. Todos do mundo político sabem disso, mas preferem se escorar nas narrativas do bem contra o mal para justificarem votos e escolhas. A tática, aliás, tem dado certo, já que a cultura do messianismo persiste forte entre os brasileiros, que erigem para si santos e demônios no altar da política.

No entanto, ao retirar o aspecto de drama simplista que traça papeis bem definidos para os personagens, ainda sobra uma história digna de compor a antologia política brasileira: o embate entre dois inimigos que incendiou a política no Brasil.

Dilma e Cunha, ambos temperamentais, se vivessem o conflito entre EUA e URSS na guerra fria, e tivessem posição de poder, teriam explodido o mundo. Mas vivendo no Brasil do século XXI ajudaram a criar uma das maiores crises políticas, produzindo um impeachment e a cassação do presidente da Câmara. Talvez tenha sido melhor assim.

O que fica de tudo, no entanto, além do roteiro pronto para uma série Netflix, é a possibilidade de novas Dilmas e novos Cunhas. Cunha é a antítese de Dilma, e só ganhou visibilidade e poder graças à total falta de tino político da presidente. Ocorre que o presidencialismo no Brasil continua aberto para aventureiros como Dilma...

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Impeachment - idas e vindas políticas



De novo a China: 

O Congresso rejeitou a posse do Vice João Goulart em 1961 porque ele estava na China comunista.
Em 2016, o Vice Temer foi empossado às pressas justamente para viajar para a China capitalista, que recebe reunião das 20 maiores economias do mundo. 

Em 1992: 
Em 1992, as Olimpíadas eram disputadas em Barcelona, Neymar acabava de nascer, Romário era jogador pelo PSV, Lindbergh era líder estudantil, Sérgio Moro era estudante de direito e Bonner e Fátima tinham dois anos de casados. 

Baianos: 
Na Câmara, Bahia, Ceará e Amapá foram os únicos estados onde venceu o voto contrário ao impeachment. Já no Senado, apenas a Bahia. 

1954, 1964, 1992, 2016: 

Muitos senadores quiseram reviver momentos passados como se a história se repetisse. 
Requião leu a carta-testamento de Getúlio Vargas evocando a similaridade do momento. Mas Dilma não se suicidou e ao invés de carta pretende deixar um documentário.
Lindbergh tentou repetir os gritos de "Canalha" que Tancredo dirigia a Auro de Moura Andrade em 1964, quando esse declarou vaga a presidência da república. Mas em 2016 quem estava presidindo era o Presidente do STF e o processo de impeachment durou 9 meses... 
Collor contou sua experiência de impeachment em 1992 por diversas vezes e disse que o governo de Dilma era uma "tragédia anunciada" e que houve dois pesos e duas medidas. 

Centro-Oeste: 

No Senado, a coesão total pró-impeachment foi vista em todos os estados do Centro-Oeste: DF, GO, MT e MS. No Sudeste, só faltou Rio de Janeiro.  

PMDB no comando: 

Em 1992, o comando do Congresso durante o impeachment estava nas mãos do PMDB, com o deputado Ibsen Pinheiro na Câmara e Mauro Benevides no Senado. Em 2016 também. Eduardo Cunha na Câmara e Renan Calheiros no Senado. 

Tiro no pé: 

A possibilidade de fatiar o julgamento de Dilma veio de uma mudança no Regimento do Senado promovida pelo Senador Ronaldo Caiado em março de 2016 - a inclusão do destaque de bancada. Se não houvesse a alteração, o destaque deveria ser precedido de votação por sua admissibilidade, em maioria simples, e certamente seria rejeitado. 

Governo dividido: 
Desde que as eleições para presidente e para o Congresso passaram a ser disputadas no mesmo ano, em 1994, nunca um partido comandou Presidência da República, Câmara e Senado ao mesmo tempo. O PMDB chegou bem próximo, e teria o comando das três instâncias caso Cunha não tivesse sido afastado da presidência da Câmara.  

Café com leite: 

Desde a redemocratização, São Paulo e Minas ainda dão as caras na política. Os presidentes que não eram dos dois estados (Collor - Alagoas; e Dilma - Rio Grande do Sul) sofreram impeachment. Já FHC e Lula, ambos de São Paulo, terminaram seus mandatos. Tancredo era de Minas, mas morreu antes da posse, fazendo do maranhense Sarney a exceção. 

O número: 

13, o número escondido das campanhas, foi exatamente o número de anos do PT na presidência da república.

Maioria:

Somados os 347 votos na Câmara e os 61 votos no Senado, há uma maioria de quase 70% do Congresso que quer a saída de Dilma. 

Vai ter luta?
Diz-se que Dilma é valente porque lutou por seus ideais contra o golpe de 1964. Mas se há golpe em 2016 ela também irá pegar em armas? Ela se excedeu no passado ou se acovardou no presente?

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Rodoviária














Quero um lugar pra ir
Quero alguém pra me levar
Os ônibus estão saindo
E o banco vai ficando vazio
A direção de uma plataforma
Não direciona meu coração

Quero um lugar pra ir
Quero alguém pra me levar
Porque não basta só sair
Já que importa chegar
Não preciso de transporte
Preciso é me transportar

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Três consequências do BREXIT

1. Crise do Establishment político

Do Reino Unido à Espanha, dos Estados Unidos ao Brasil. É fato que o establishment político não encontra voz em um mundo onde as relações sociais não precisam mais da intermediação de instituições políticas.

A campanha pelo Remain uniu, de maneira inusitada, David Cameron aos Trabalhistas e ao Partido Nacionalista Escocês. A maioria dos grandes líderes políticos do Reino Unido advertia contra os riscos de saída da União Europeia, ao mesmo tempo que clamava pela continuidade do país no bloco.

O apelo desses líderes não surtiu efeito. O Partido Trabalhista, forte defensor do Remain, está sendo criticado por ter perdido a conexão com seus eleitores, ao mesmo tempo em que Cameron e a nata do Partido Conservador falharam em seus apelos. Parece haver uma rejeição mundial da população a seus políticos eleitos.

Nos EUA, o fenômeno da candidatura de Donald Trump pelo Partido Republicano ainda é uma surpresa. Praticamente sozinho dentro do partido, Trump foi galgando espaço com seu discurso populista, aliás, contra o establishment político de Washington e econômico de Wall Street.

No próximo domingo, os espanhóis voltarão às urnas para tentar dar fim ao impasse político que vem desde dezembro de 2015. Dois partidos novos, o Podemos e o Cidadão, são forças recentes que se voltam contra o domínio tradicional do PP e do PSOE e complicam a disputa.

No Brasil, o desprezo pela classe política é antigo, mas acentua-se conforme a Lava Jato vai mostrando a corrupção entranhada em todos os partidos. Os prognósticos para a candidatura de Bolsonaro em 2018 afirmam que não haverá fôlego ao capitão do Exército. Mas essa era a mesma previsão quanto a Trump e ao Brexit...

2. Golpe no projeto jurídico, filosófico e político de integração mundial

A integração europeia foi para o século XXI talvez o que o iluminismo foi para o século XVIII: uma grande esperança de um mundo melhor a partir de arranjos políticos e sociais.

No direito, a ideia do transconstitucionalismo é sedutora. Perspectivas internacionais dos direitos humanos, globalização jurídica, cortes internacionais, e uma ética habermasiana montaram o palco para uma geração de juristas sonhar com a construção da cidadania inclusiva ou de uma comunidade democrática internacional a partir da verborragia de conceitos jurídicos.

No ramo filosófico, foi o multiculturalismo a bandeira empunhada para pregar a fraternidade universal dos povos. Charles Taylor, um dos expoentes da tradição, advoga que o reconhecimento da identidade de grupos sociais autoriza a violação do dogma da igualdade. A “política da diferença” deveria ser a tônica de um mundo plural onde convivem pessoas com crenças e valores distintos dentro da mesma sociedade.

Por fim, a materialização política de todo esse pensamento veio com a União Europeia. Uma série de avanços gradativos que possibilitaria a unidade em meio à diversidade, onde o todo seria maior que a soma das partes. O grande paradigma das relações internacionais, o modelo de referência para o Mercosul. Parecia ser a tendência do novo século: o alargamento das fronteiras do Estado nacional na diluição de grupos multinacionais, num projeto maior, grandioso e moderno.

Tudo ruiu com o resultado da consulta aos britânicos. Ainda é cedo para falar da falência total desse projeto. Mas certamente ele nunca mais será o mesmo.

3. Ressurgimento dos nacionalismos

O pano de fundo da saída da União Europeia foi todo preenchido pela discussão nacionalista. O Leave ganhou por apresentar argumentos plausíveis e palatáveis ao grande público: o problema cada vez maior da imigração não seria resolvido a partir de Londres ou da vontade soberana do povo britânico; a possibilidade de entrada da Turquia no bloco poderia gerar um caos econômico e social; as milhões de libras enviadas anualmente pelo Reino Unido poderiam ser revertidas em projetos internos etc.

Como se alegava, permanecer na União Europeia era ficar nos “Estados Unidos da Alemanha”, submetidos ao poder de Merkel. Foi com apelo fortemente nacionalista que nesta sexta-feira se proclamou o “dia da independência” britânico. O movimento representa, agora de forma visível, simbólica e cabal, o ressurgimento dos nacionalismos após a onda da globalização.  

A força dessa saída, obviamente, encorajará outros movimentos separatistas. Já se estuda um novo plebiscito para que a Escócia deixe finalmente o Reino Unido e permaneça na União Europeia. A Catalunha ganha força para seu projeto. Além, é claro, da Frente Nacional francesa, chefiada por Marine Le Penn, que já prometeu o Frexit para o ano que vem.

A guerra da Síria, a crise migratória, o Estado Islâmico e o terrorismo são todos elementos que reforçam o argumento nacionalista, seja nos EUA de Trump, seja no Reino Unido de Cameron. É um fenômeno que veio para ficar, e por isso é preciso deixar de lado críticas pueris e acusações de “xenofobia” para melhor entender o que está acontecendo com o mundo e como lidar com essa nova realidade.