terça-feira, 26 de setembro de 2017

Meu delator favorito

No início a gente se indignou, comentou que absurdo, que tragédia fizeram com o país! Depois ficamos na expectativa de que a próxima seria ainda mais bombástica. Depois se acostumou.

Hoje as delações premiadas viraram entretenimento, reality show da corrupção, que a gente assiste um pouco, se abisma, e depois muda de canal para ver o futebol. Em muitos casos, a gente até tira do futebol para se divertir um pouco com o mais novo episódio do folclore da política brasileira, nesse humor negro que faz a gente rir para não chorar.

Senta no sofá, pega a pipoca, que é hora de ver delação. É melhor que novela.

O cara começa a desvendar uma trama com diversos personagens, locais de entrega da propina, contas secretas – um deleite narrativo onde a realidade parece até mais estranha que a ficção. Assistir delação é igual a ver documentário sobre crime. Já se conhece o final, mas o interessante é ver o depoimento dos envolvidos. Desvio de dinheiro em contratos superfaturados para enriquecer políticos e empresários. Acontece desde sempre. No entanto, é sempre bom conhecer melhor o esquema, dar nome aos bois, torná-lo mais pessoal.

Logo a gente simpatiza com alguns delatores pela capacidade de expressar objetivamente o que acontece na lama da corrupção, pela competência em descrever como é a vida no subterrâneo. Alguns até nos convencem de que entraram no esquema quase que forçados pelo sistema. Tadinhos. Outros geram repulsa de imediato. Sei lá, pode ser a aparência de mafioso ou a empáfia na hora dos depoimentos.

Comecei a maratona da série “os delatores” ouvindo o Paulo Roberto Costa, o precursor, ainda em áudio, em uma longa audiência com Moro. Ouvi atentamente sua história de engenheiro bem-sucedido na Petrobrás, como ele foi engolido pelo esquema e quando se viu já estava distribuindo propina entre os deputados do PP. Coitado. Mas depois o cara deixou a barba branca crescer, meteu uns óculos escuros e veio depor no Congresso feito um gangster. Aquele visual mafioso acabou com sua imagem de bom moço.

Já o Delcídio veio todo todo com aquele topetinho branco reluzente. Ele não tinha nada a perder, e ia morrer atirando. Prometeu muita coisa, criou grande expectativa. A audiência dos espectadores aumentou. Mas ele disse apenas obviedades. Grande decepção.

Ricardo Pessoa, com aquele andar de gigante, barbudo, quase um ogro, o chefe do “clube”, surpreendeu e trouxe uma das pérolas da antologia da corrupção: o pixuleco.

A temporada da Odebrecht foi divertidíssima. Longa, cansativa, porém recompensadora. Começou digna de thriller. Com uma figura prosaica, simples, uma secretária, distante do centro de poder da empreiteira, mas perto de planilhas com codinomes comprometedores. Foi assim que Maria Lúcia Tavares, secretária do famoso Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, levou a delação para um outro nível, carregando, a reboque, o chefe e mais de setenta executivos da empresa.  

As delações da Odebrecht foram material de qualidade, trazendo a equilíbrio entre a elegância de executivos discorrendo seriamente sobre propinas vultosas em hidroelétricas e a naturalidade e singeleza dos entregadores de dinheiro. Os melhores capítulos ficaram por corta daquele sotaque baiano do Marcelo, fala casual, agradável de ouvir, e também da desfaçatez caricata do Hilberto Mascarenhas, esse bonachão qual um capo siciliano.

A Monica Moura também foi das boas. Quando presa, já mandou um sorriso para o fotógrafo, poderosa e segura de si. Decidiu delatar, ela e o marido. Cumplicidade total; exemplo, aliás, para os casais de hoje em dia. Trabalham juntos, negociam propinas juntos, enriquecem juntos, são presos juntos e delatam juntos. A delação foi num tom caseiro, quebrando a frieza das salas das procuradorias. Um papo descontraído na mesa da sala, uma conversa no salão de beleza: Dilma achava o João inteligente, só confiava nele; a gente criou email; vamos escolher um nome; coloca aí Iolanda, amiga!

Veio, então, quem poderia desbancar todo mundo e galgar o topo do ranking dos delatores. Ele teve a oportunidade de gravar até o Presidente da República. Mas não esteve à altura da tarefa. Joesley Batista, o goiano das frases sem nexos, das conversas truncadas, dos assuntos embaralhados. Que desperdício!

Na delação na sala da PGR ele até tentou manter a pose. Na imagem desfocada, ele aparecia atrás da mesa falando calmamente. Mas os áudios que ele apresentou como prova são um desastre. Tivesse ele a inteligência de um Funaro, ou a fluidez na conversa de um João Santana, então o conteúdo do seu gravador seria coisa fina, peça das mais valiosas a compor o museu da corrupção no Brasil. Mas o cara não tinha sequência no raciocínio e nem concordância sabia direito (“nós não vai ser preso, Ricardinho!”).

Para ser um bom delator, tem que ter honestidade, objetividade, concisão e ser envolvente. O cara tem que ter a virtude de vilão de Scooby-Doo, que, quando capturado, revela em poucos minutos todos os detalhes do plano sórdido para se dar bem, que teria dado certo não fosse a intromissão desses investigadores.

O Palocci é promissor. Nem é delator ainda mas já está abrindo o jogo em plena audiência, frente a frente com Moro. Começou esquivo, falando que pode colaborar e dar ainda muito trabalho para o juiz. Na mais recente, deu com a boca no mundo e saiu-se com o sonoro “pacto de sangue”. Coisa boa. Promete.


É esperar para ver. Quando sai a próxima temporada?

quarta-feira, 24 de maio de 2017

24 de maio



Quem votou em Temer hoje pede sua saída. Quem não votou também quer que o presidente renuncie, principalmente depois da delação.

Até para as lideranças mais canhestras, seria fácil unir os dois grupos em um protesto uníssono. Seria um tiro certeiro. Milhões de pessoas nas ruas, e a constatação clara de que a vontade do país é a mesma. O Congresso viria a reboque.

Mas o caminho escolhido por um dos lados foi outro. Fechar os canais de diálogo, radicalizar o discurso e ir para as ruas sozinho, com atos de vandalismo. Por que? Para criar um clima de caos no país, para fabricar uma atmosfera de convulsão social e assim insuflar a tese de eleições diretas.

Quando se perde a capacidade de dirimir conflitos de interesse pela política e pela diplomacia, o que resta é a violência. Desde 2013, a violência tem se tornado um recurso comum no arsenal de protestos populares, entranhando-se até mesmo no parlamento. 

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Venezuela (3/3) – O chavismo sem Chávez


Desde o final da primeira década do novo século, o chavismo já vinha dando mostras de que perdera o fôlego popular inicial. Após o boicote das eleições de 2005, a oposição conseguiu 40% das cadeiras da Assembleia Nacional nas eleições legislativas de 2010.

Com a morte de Chávez em 2013 e o fortalecimento da oposição, o governo perdeu a capacidade de agir dentro do arcabouço institucional ou de propor mudanças pelas vias ordinárias. O estado constitucional bolivariano, criado por reformas políticas durante Chávez, só tem conseguido se manter por casuísmos e atos extralegais, o que aumenta a polarização política.

A queda do preço do petróleo foi o último ingrediente para acabar com a euforia popular do chavismo. Descontrole das contas públicas, inflação alta e crise de abastecimento têm inflamado a população contra o governo desde 2014.

Nicolás Maduro, o sucessor do chavismo, elegeu-se presidente em 2013 com uma diferença de apenas 220 mil votos (ou 1,5%) para o segundo colocado, Henrique Caprilles. A oposição não reconheceu o resultado e pediu a recontagem dos votos.

Em fevereiro e março de 2014, a oposição organizou massivos protestos contra o governo. O confronto com a polícia teve como resultado a morte de 43 pessoas. Além disso, foi preso o grande líder da oposição, Leopoldo López. Desde então, mais de 80 opositores já foram presos, configurando, para muitos analistas, prisões políticas.

A situação política da Venezuela se agravou com as eleições legislativas de 2015, quando a oposição enfim alcançou a maioria das cadeiras (56%).

Desde 2016, Maduro vem ignorando sistematicamente a Assembleia e governando por decretos, baseando-se num “estado de exceção e emergência econômica”. Maduro se recusou a convocar plebiscito para votar o recall de seu mandato, como a constituição prevê e foi feito em 2004 com Chávez. Diante da crise política, adiou as eleições locais por tempo indeterminado, e é provável que faça o mesmo com as eleições presidenciais marcadas para o final de 2018.

Dois órgãos têm dado aparência de legitimidade ao governo ditatorial de Maduro. A Suprema Corte e o Conselho Nacional Eleitoral.

O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) é o titular do poder eleitoral. É composto por 5 membros sem vinculação partidária, sendo 3 da sociedade civil, 1 jurista e 1 do Poder Cidadão. Os membros são escolhidos por um comitê formado por 11 deputados e 10 cidadãos de outros setores e têm mandato de 7 anos.

Atualmente, o CNE tem maioria chavista, o que tem logrado a Maduro vitórias importantes. O favorecimento mais evidente diz respeito ao financiamento de campanhas, onde todo o peso da máquina estatal é utilizado para apoiar o partido da situação com a conivência do CNE.

Além disso, o CNE questionou a eleição de três deputados da oposição em 2015, alegando fraude nos pleitos. Com esses três votos, a oposição teria maioria qualificada para aprovar reformas constitucionais.  

Pelo domínio do CNE, a Venezuela é classificada, no mínimo, como um caso de autoritarismo eleitoral, onde o governo controla a autoridade eleitoral e manipula as leis eleitorais para favorecer seus candidatos.

Já a Suprema Corte possui 32 membros, com mandatos de 12 anos, todos eleitos pelo Legislativo. Por ter maioria chavista, a corte também tem atuado para favorecer Maduro, retirando, por exemplo, a imunidade dos parlamentares e dando o aval para as prisões políticas.

Em virtude do questionamento do CNE acerca da eleição de três deputados, a Suprema Corte declarou a ilegalidade da Assembleia Legislativa por estar em “desacato”, tornando nula todas as suas decisões.

Em março de 2017, a Corte avocou para si o exercício do papel legislativo, mas voltou atrás diante da grande repercussão internacional (a OEA classificou como golpe). O ato representou claramente a quebra da ordem institucional, levando a nova onda de protestos, resultando, até agora, na morte de 40 pessoas.

Para sair da crise, o presidente Nicolás Maduro propôs, por decreto, a realização de nova assembleia constituinte. Metade dos constituintes será eleita em cada território do país; a outra metade será eleita pelos diversos setores da sociedade.

Primeiramente, Maduro não poderia convocar a constituinte por decreto, como reza a própria constituição bolivariana. Segundo, não está claro como será a “eleição setorial” dos constituintes, mas sabe-se que esse mecanismo garantirá maioria ao chavismo.

A grande questão para a oposição, no momento, é decidir se participa ou não da constituinte. O boicote das eleições legislativas de 2005 custou caro e deu a hegemonia do poder político a Chávez. Convém participar do processo e demarcar espaço político ou se recusar a reconhecer a legitimidade de uma nova constituinte e partir para o enfrentamento?


O clima de polarização é tão elevado que uma guerra civil não é um cenário improvável. Até porque as forças armadas têm tido papel fundamental para a sustentação de Chávez. Haverá sublevação de alguns quarteis? A oposição deverá agir apenas pela via política ou deverá partir para a luta? A pressão internacional surtirá algum efeito?

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Venezuela (1/3) - A Política pré-Chávez

Venezuela (2/3) - A Revolução Bolivariana

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Venezuela (2/3) - A Revolução Bolivariana

Após quase uma década de crise política e econômica, Hugo Chávez é eleito presidente em 1998. Apenas 63,5% dos eleitores compareceram às urnas, demonstrando a total falta de entusiasmo com a democracia. As eleições foram fragmentadas, e o partido de Chávez conseguiu apenas 37,2% das cadeiras no parlamento.

Mesmo minoritário, Chávez prometeu completa reformulação do sistema político venezuelano. Tomou posse em fevereiro de 1999, e em dezembro do mesmo ano era promulgada uma nova constituição.

Em janeiro de 1999, Chávez fez uma consulta à Suprema Corte perguntando se seria lícito realizar uma consulta popular sobre a instalação de uma assembleia constituinte. A Corte concordou. A própria oposição reconhecia que se tratava de uma questão política, e não jurídica.

O plebiscito sobre a nova constituinte foi realizado em março de 1999, quando apenas 37,6% da população foi às urnas. Dos votantes, mais de 80% aprovou a realização da constituinte, dando extensos poderes ao órgão.

A assembleia nacional constituinte (ANC), eleita em julho, foi totalmente dominada pelos chavistas, com 122 das 131 cadeiras. A ANC e o Congresso passam a disputar poderes e competência, com vantagem para a primeira.

Em dezembro de 1999, a nova constituição é referenda por 71,8% dos votantes, embora a taxa de comparecimento tenha sido de 44,4% do eleitorado.

A nova constituição extinguiu o Senado e instalou um legislativo unicameral pela Assembleia Nacional, com 165 cadeiras. O número de cadeiras foi reduzido. Manteve-se o número mínimo de 3 deputados por estado, mas acabou-se com a correção nacional de proporcionalidade. Houve a fixação de uma cota de 3 cadeiras para índios.

A divisão do sistema misto passou para 60% para distritos nominais e 40% para a representação proporcional. A constituição tirou da AN a prerrogativa de iniciar o impeachment do presidente, mas previu que um certo número de assinaturas populares pudesse propor a revogação do mandato quando chegasse em sua metade (o recall).

Além disso, aumentou o mandato presidencial de 5 para 6 anos, enquanto que o de deputado permaneceu em 5 anos (as eleições para presidente e deputado só coincidem a cada 30 anos).

Em 2000, após a promulgação da nova constituição, novas eleições foram realizadas (elas só seriam realizadas em 2003 segundo a constituição de 1961). Foram as chamadas mega-eleições, na qual se disputaram simultaneamente a presidência, as 165 cadeiras da Assembleia Nacional e os 23 governos estaduais.

Chávez foi eleito com 59,8% dos votos. Os partidos chavistas ficaram com 99 cadeiras (60%), a AD com 30 cadeiras (18,2%) e a COPEI com 7 (4%).

Em 2001, a Lei Habilitante deu poderes legislativos limitados ao presidente, de modo que só em novembro daquele ano foram editados 49 decretos-lei. Era o início da polarização entre o chavismo e a oposição.

Reagindo às reformas de Chávez, um golpe de estado foi tentado em 2002, retirando o presidente temporariamente de suas funções. Mas tropas leais ao presidente e o forte apoio populacional possibilitaram a Chávez a reassunção do poder. Em dezembro desse ano, uma greve geral paralisou o país e arrasou a economia, mas sem conseguir forçar a renúncia de Chávez; pelo contrário, apenas desacreditando as táticas da oposição.

O embate entre Chávez e a oposição seguiu por toda a década. Chávez apostava em programas sociais e apresentava discurso populista, o que mantinha sua popularidade elevada. Enquanto isso, a oposição tentava sem sucesso esboçar reação.

Em 2004 foi realizada um recall, previsto constitucionalmente e proposto pela oposição, para revogar o mandato de Chávez, mas o presidente foi mantido no cargo com quase 60% dos votos.

Nas eleições legislativas de 2005, a oposição decidiu boicotar o pleito, o que fez com que a quase totalidade das cadeiras da Assembleia Nacional ficasse com Chávez. No ano seguinte, novas eleições presidenciais deram a reeleição à Chávez.

A oposição reconhece que as tentativas de golpe de estado em 2002 e o boicote para as eleições da Assembleia Nacional em 2005 foram grandes erros, que só aumentaram a legitimidade do governo chavista e reforçaram seu discurso populista.

A primeira vitória da oposição ocorreu somente em 2007, em um plebiscito proposto para alterar 69 artigos da constituição e aumentar o poder de Chávez, incluindo a possibilidade de reeleições ilimitadas. A reforma foi barrada pelo plebiscito.

A partir daí, o chavismo começa a perder a força hegemônica que tinha alcançado nas urnas, e as soluções propostas são quase todas questionadas por sua legalidade. Por exemplo, em 2008 o partido chavista perde as eleições para a prefeitura de Caracas. No entanto, Chávez usa seus poderes de decreto para fazer valer uma série de emendas constitucionais não aprovadas pelo referendo do ano anterior; dentre elas, cria o cargo de Chefe do Governo na Capital, de livre nomeação do presidente, conferindo a ele vários poderes e praticamente neutralizando a atuação do prefeito eleito.

Novo plebiscito foi realizado em 2009 propondo reeleições ilimitadas para a presidência. Dessa vez, a emenda foi aprovada com 54% dos votos (tinha sido rejeitada em 2007). A mudança constitucional abriu margem para que Chávez fosse reeleito em 2012.

A revolução bolivariana foi marcada pela reformulação do sistema político, com o aparelhamento estatal, um discurso populista sustentado pelo plebiscitarismo em contraposição ao controle parlamentar, e a falta de freios à vontade da maioria.


Chávez venceu quatro eleições presidenciais (1998, 2000, 2006 e 2012) e ficou no poder de 1999 a março de 2013, quando morreu vítima de um câncer. Foram mais de quatorze anos no governo da Venezuela. 

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- Venezuela (1/3) - A Política pré-Chávez

- Venezuela (3/3) – O chavismo sem Chávez

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Venezuela (1/3) - A Política pré-Chávez



A instabilidade política e social que tem sacudido a Venezuela beira à falência institucional, possivelmente a uma guerra civil. No último dia 3 de maio, Nicolás Maduro propôs por decreto a instauração de uma nova assembleia nacional constituinte para reformar a atual constituição, recente, promulgada em 1999 por Hugo Chávez. Para entender o labirinto político venezuelano, deve-se compreender primeiro a “revolução bolivariana”, e, logicamente, por que ela ocorreu.

Desde a independência, o país assistia a uma sucessão de ditadores. A democracia foi realmente implementada em 1958, com o Pacto de Punto Fijo. Após a ditadura militar de Pérez Jiménez (1952-1958), as elites políticas celebraram um amplo acordo onde se comprometeram a respeitar o resultado das eleições e partilhar cargos e responsabilidade política.

A transição democrática foi operada pelos grandes partidos, o que deu grande estabilidade ao sistema político e democrático. Isso porque os partidos tiveram capacidade para superar divergências ideológicas e afastar grupos radicais de esquerda e os militares.

Em toda a América do Sul, apenas Venezuela e Colômbia não tiveram rupturas democráticas de 1960 a 1980. A Venezuela viveu uma democracia estável de 1958 a 1992, com um sistema partidário fortíssimo.

Dois grandes partidos dominaram o cenário político a partir do acordo de Punto Fijo: a Ação Democrática (AD), partido de centro-esquerda e multiclassista; e o Comitê de Organização Político Eleitoral Independente (COPEI), partido democrata cristão de centro-direita, da Igreja Católica e de setores do empresariado. AD e COPEI dominaram tanto o Congresso quanto a presidência. De 1958 a 1988 foram realizadas 7 eleições presidenciais: 5 vencidas pela AD e 2 pela COPEI.

O domínio dos partidos era tamanho que o regime foi chamado de partidocracia.

De acordo com a Constituição de 1961, a eleição dos deputados se dava pelo sistema proporcional de lista fechada, dando grande poder à burocracia dos partidos na elaboração das listas. O mandato dos deputados, assim como do Presidente, era de 5 anos.

Contudo, na década de 1980, a queda do preço do petróleo teve um efeito brutal sobre a economia venezuelana. Aumento da dívida externa, acordos com o FMI, inflação e aumento da gasolina levaram o país a uma espiral negativa rumo à falência econômica.

O modelo de Punto Fijo, baseado na distribuição dos benefícios da renda petroleira por meio do clientelismo, começou a dar sinais de exaustão. A partir de 1988, tem-se um longo período de instabilidade democrática. Dois golpes de estado são tentados em 1992 (Chávez participa de um deles). No ano seguinte, consuma-se o processo de impeachment do presidente, assumindo Rafael Caldera, político fora do circuito AD-COPEI.

A elite política esboça uma reação diante da crise. Reformas eleitorais preveem a eleição direta de prefeitos e governadores. A partir das eleições de 1993, metade das cadeiras seria eleita pelo sistema proporcional de lista fechada, e a outra metade seria eleita em distritos uninominais por maioria simples. Cada eleitor poderia dar dois votos.

A intenção da reforma era diminuir o controle dos líderes partidários, arejar a política e diminuir a distância entre representantes e representados.

A reforma, no entanto, não surtiu efeitos, nem para aproximar eleitores e eleitos, nem para diminuir o domínio dos grandes partidos. Com a crise democrática, AD e COPEI foram perdendo espaço, ao mesmo tempo em que o ânimo da população com a política arrefecia – em 1988, o comparecimento às urnas foi de 72,7%; em 1993, de 60%; e em 1998 de 63,5%. 

Foi nesse quadro conturbado, de crise econômica, reformas eleitorais recentes e descrédito da política que se disputaram as eleições de 1998.

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Venezuela (2/3) - A Revolução Bolivariana

Venezuela (3/3) – O chavismo sem Chávez

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Eleições na França


A Europa aguarda com ansiedade as eleições presidenciais francesas, que serão realizadas no próximo dia 23 de abril. Após a vitória do Brexit no Reino Unido em junho do ano passado, os europeus querem saber qual será a força e extensão da onda nacionalista, que pode minar com os fundamentos da União Europeia.

No mês passado, as eleições na Holanda deram vitória ao establishment político pró-União Europeia. Na França a campanha ainda está bastante embolada.

As eleições para presidente e deputados ocorrem a cada cinco anos, e o voto é facultativo. Primeiro, realiza-se a eleição presidencial, em sistema de dois turnos. Definido o presidente, realizam-se em seguida as eleições para a Assembleia Nacional (Câmara dos Deputados), e depois para o Senado.

O fracasso do governo de François Hollande foi evidente. O desempenho fraco da economia, o desgaste com a reforma trabalhista e os atentados terroristas minaram a popularidade do presidente, tanto que ele desistiu de disputar a reeleição. Esse vácuo de poder embaralhou a corrida presidencial em 2017 e deu margem para diversos candidatos tentarem a sorte.

A menos de uma semana da eleição, quatro candidatos aparecem em empate técnico, sendo realmente imprevisível quem serão os dois a participar do segundo turno.  

  • A Frente Nacional, partido de direita contrário à UE, vinha com força desde o ano passado, especialmente devido à crise migratória e à onda de atentados terroristas. Marine Le Pen, a candidata do partido, alterna entre o primeiro e o segundo lugar nas pesquisas, e pode se beneficiar do eleitor oculto, aquele constrangido em apoiá-la explicitamente mas que votará na candidata no dia do pleito (como ocorreu com Trump)
  • O quadro de vantagem da Frente Nacional mudou quando o partido Republicanos, de centro-direita, escolheu François Fillon como seu candidato em novembro de 2016. De tom moderado e apresentando-se como um político experiente e respeitável, Fillon assumiu a dianteira e sua eleição era dada como bastante provável até o início do ano. Tudo ia bem até a divulgação de que Fillon teria empregado mulher e filhos como funcionários fantasmas de seu gabinete parlamentar. Diante do comprometimento ético, Fillon despencou nas pesquisas e passou a toda campanha na defensiva.
  • Aproveitando-se do debacle na esquerda, criou-se um movimento político paralelo ao tradicional Partido Socialista, o En Marche. O candidato desse novo movimento, de orientação liberal e que se define como “nem de direita e nem de esquerda”, é Emmanuel Macron. O jovem candidato foi ex-Ministro da Economia de Hollande, e é pró-União Europeia. Tem mantido a dianteira durante toda a campanha e é provável que vá para o segundo turno.
  •  Também preenchendo o vácuo de poder deixado pelo Partido Socialista, tem crescido bastante o candidato do França Insubmissa. O veterano de extrema-esquerda Jean-Luc Mélenchon também tem discurso contrário à União Europeia e cresceu nas pesquisas devido ao discurso contrário ao sistema, algo como Bernie Sanders.


O segundo turno das eleições presidenciais, bastante provável, acontecerá em 7 de maio. Será uma campanha curta, de duas semanas, e a tendência é o reagrupamento das forças de centro, tirando fôlego dos candidatos mais radicais (Le Pen e Mélenchon).

Um mês depois, em 11 de junho, serão realizadas as eleições legislativas. A Assembleia Nacional francesa é formada por 577 deputados, eleitos pelo sistema distrital de dois turnos. O território da França é dividido em 577 distritos eleitorais, e cada distrito elege apenas um deputado.

O sistema é semelhante ao da Inglaterra e ao dos Estados Unidos. A diferença francesa é a exigência da maioria qualificada do eleitorado para a eleição do deputado. Se nenhum candidato alcançar mais de 50% dos votos do distrito, realiza-se segundo turno, uma semana depois (em 18 de junho). No segundo escrutínio, podem participar os candidatos que tenham alcançado ao menos 12,5% dos votos do eleitorado, o que corresponde mais ou menos a 20% dos votos válidos. A exigência foi pensada para dar maior legitimidade ao deputado eleito pelo distrito.

Uma vez que as eleições presidenciais ocorrem antes das legislativas, a tendência é que o partido do presidente eleito tenha mais força para disputar as cadeiras no parlamento, alcançando, em geral, a maioria dos assentos na Assembleia Nacional.

Como membro fundador da União Europeia, a França é peça-chave para a solidez do bloco. Por isso os olhos se voltam para os franceses no próximo domingo. Seja como for, o lado bom de tudo é não ter mais que ouvir a Cecília Malan pronunciando “François Hollande”. 

segunda-feira, 13 de março de 2017

Salvo-conduto para vascaínos


Troca-se de tudo hoje em dia. Profissão, cônjuge, casa, partido político, operadora de celular (bendita portabilidade) e até sexo. Reflexo talvez da modernidade líquida, para usar a expressão da moda, comum a partir dos livros de Bauman.

Há, no entanto, uma mudança jamais aceita pela nossa sociedade, que é a mudança de time. Não se ouve de ninguém que, tendo torcido por quinze anos para o Cruzeiro, agora mudou para o Palmeiras. Isso é impossível. No máximo, existe a concessão regional: torço para o Cruzeiro, mas simpatizo com o Palmeiras em São Paulo. Nesse caso, não há mudança, mas incorporação.

A escolha do time é talvez a primeira grande decisão da vida do menino. Agitado pelos vitoriosos do momento, o garoto compra a camisa do último campeão brasileiro, gosta do vencedor da Copa do Brasil, e se maravilha com a torcida do campeão estadual. Isso sem deixar de torcer para o time do pai.

Chega uma hora, porém, em que a escolha deve ser feita em definitivo. Cada família coloca seu prazo final, mas em geral ele não passa dos dez anos. É um ritual de passagem: agora, meu filho, chegou o momento de escolher seu time, sua torcida, sua paixão no mundo da bola, pense bem, pois essa decisão não tem volta e o acompanhará pelo resto de sua vida.

Dos vários tipos de infidelidade, talvez o mais repudiado socialmente seja o do vira-casaca. O sujeito que troca de time depois de atingir a idade da razão. Tipo abjeto, fraco, que se ilude pelo vencedor do momento e abandona sem pudor o time de sua infância. Merecedor de todo o tipo de escárnio de amigos e conhecidos.

Devem-se respeitar as tradições.

Mas sugiro aqui uma quebra parcial de paradigma. Proponho concedermos um salvo-conduto para que vascaínos mudem de time. Uma janela de transferência, um passe livre temporário para que os amigos cruzmaltinos possam – sem acusações, sem constrangimentos, sem hostilidades – escolher outro time para torcer. Inclusive, seria de bom alvitre se cada um pudesse dar as boas-vindas aos vascaínos, convidando-os, cada qual, ao seu respectivo time.

Acolher vascaínos é medida humanitária, à semelhança dos refugiados de guerra. São todos vítimas das circunstâncias. Mas se há problemas políticos e econômicos em receber refugiados nos países ricos, não há nenhum óbice ao acolhimento de vascaínos nos diversos times grandes do Brasil.

Como não se compadecer de torcedores que cantam, em seu grito de guerra mais famoso, sobre um “gol do Juninho no Monumental”, em 1998 (estamos em 2017!)? Três vezes rebaixado à Série B do Brasileirão nos últimos dez anos. Administração falida. O eterno vice. O Vasco da Gama se transformou em um pseudo-time, certamente um ex-grande do futebol brasileiro.

Os estaduais dos últimos anos não contam. Primeiro porque carioca não pode entrar na contabilidade dos campeonatos importantes, por razões evidentes. Depois porque foram meros deslizes em uma trajetória constante ladeira abaixo. Sobressaltos de fôlego em um doente terminal.

Alguém pode querer estender a medida aos botafoguenses. Não abramos concessões demasiadas. Os casos são diferentes.

O botafoguense é um torcedor apaixonado, embora quase sempre sofredor. O botafoguense se empolga com seu time, lota o aeroporto para receber Seedorf, cria gritos de guerra novos e vive na expectativa de contratações internacionais que resolverão o problema de elenco. Por diversas vezes possui um time bem armado, que joga bem, mas falha nas horas decisivas. A carência de títulos importantes remonta ao Túlio Maravilha de 1995. Por isso o Botafogo não entusiasma novas gerações, e está fadado ao definhamento natural quando envelhecerem seus torcedores atuais. Mas ainda assim o botafoguense torce, acompanha seu time e vibra com o futebol.

Bem diferente é o vascaíno. O vascaíno é um torcedor que não torce. É alguém que foi aposentado compulsoriamente do futebol. Às vezes triste, às vezes cabisbaixo, mas sempre indiferente.

Os mais persistentes deram de torcer para times internacionais a fim de preencher a carência: Real Madrid, Chelsea, Inter de Milão. Outros debandaram para esportes diversos, assistem NBA e fingem empolgação com o Super Bowl. Mas a maioria virou aquela espécie de desinteressado da bola, que “torce para o Brasil”, e ainda assim só na época de Copa do Mundo.

O problema é que os vascaínos gostam de futebol, e não mereciam estar nesse estado indigente. Andam pelos cantos, tímidos, desalentados. Em roda de conversa entre amigos, o vascaíno é aquele que ri, que ouve os papos de futebol, mas não se atreve a ir além, a comentar, a defender seu time. Tampouco tem ele autoridade moral para pilheriar com a derrota alheia.

Quarta-feira à noite o vascaíno liga a TV, vê o gramado verde e a bola rolando, e sente algo de bom dentro do peito – alguma reminiscência longínqua o lembra de que ele já foi feliz no futebol. Mas logo ele é trazido à dura realidade. E já não se encontram mais de três vascaínos que se reúnam para ver algum jogo do gigante da colina – não é mais atração.

A bonita camisa com a faixa vermelha pode até ser usada, mas não mais como estandarte da vitória. A última vez que os vascaínos saíram de casa orgulhosos com a camisa foi após ganharem o carioca de 2015, com a campanha “o respeito voltou”. Terminaram o ano rebaixados no Brasileirão.

Mas a situação pode mudar. Se o salvo-conduto for concedido, em breve poderemos ver amigos e parentes precocemente aposentados do futebol sorrindo novamente, frequentando estádios, participando de conversas e sentindo orgulho de seus times.


Os estaduais estão se encaminhado para o fim. Depois vem o Brasileiro. Concedendo-se o salvo-conduto, os vascaínos teriam até lá para escolher novo time, e começar o campeonato já de camisa nova e ânimo novo. Espero que todos apoiem a ideia.