quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Confissões de um blogueiro

Escrever opiniões, repercutir fatos, expor pensamentos e trabalhar palavras. Trabalhá-las para que fiquem inteligíveis, para que o texto exprima todo o seu significado e ainda guarde a concisão adequada ao veículo. Manter um blog é um ofício ingrato. Afinal, na velocidade dos cliques, quem vai perder seu tempo lendo um texto quando pode passar os olhos em tweets ou se engraçar com imagens. Ler dá trabalho e custa tempo. E de certa forma, o computador é a alternativa que a gente inventou para não ter que se divertir só com livros ou a televisão.

Mesmo assim, os blogueiros não se desanimam com as vacas magras que passeiam pelos seus textos. No começo, caçam com avidez os comentários. E comemoram quando de fato alguém escreve alguma consideração sobre o seu post. É a forma de saber que o seu espaço nessa terra vasta e sem dono chamada internet foi de algum modo apreciado por andarilhos. Conforme os textos vão sendo publicados, logo a decepção com a escassez de comentários é substituída por outra preocupação: será que alguém ainda me lê?

O contador de visitantes muitas vezes é uma ilusão que computa como acesso aqueles que apenas pelo site passaram em busca daquela foto que se colocou para ilustrar o texto. Mas quantos efetivamente se ocupam das palavras ditas é mesmo um mistério. E então, que utilidade haverá em manter um espaço não visitado senão para figurar como um louco que grita palavras que ninguém ouve. A depender das palavras, ainda valerá a pena gritar em um universo surdo.

O valor da escrita se aperfeiçoa quando encontra o seu destinatário, mas já existe enquanto processo que se desenvolve na mente do escritor. Escrever é um imperfeito exercício de tradução. Tradução de sentimentos, percepções e análises em palavras e frases. Para traduzir bem, é mister que a pessoa seja fluente nas duas línguas, a da alma e a das palavras. E a fluência só se adquire, não há outro jeito, treinando. Escrever, portanto, é estabelecer a interconexão entre dois mundos e ir conhecendo a fundo cada um deles. É se aventurar por caminhos que se julgam conhecidos, mas que revelam uma profundeza descomunal para os que o desbravam um pouquinho.

E não apenas isso. É também conhecer a fundo a si mesmo. "Não sei o que penso sobre alguma coisa até ter lido o que escrevi" exclamou certa vez William Faulkner. Pensamentos são difusos e informes; memórias são fragmentadas e fugazes. Essa massa ininteligível se torna compreensível quando, na prensa de uma caneta ou de um teclado se transforma em sentenças lógicas, em frases estruturadas e em um texto ordenado. Eis o valor das palavras soltas ao vento sem que ninguém as ouça. E se no mundo o problema é a busca por espaço, pelo seu espaço e afirmação, “escrever é poder falar sem ser interrompido”.

Este Blog chega ao seu quinto ano de existência com mais de 100 publicações e talvez nenhum leitor senão eu mesmo e alguns familiares. O balanço é positivo. Aqui se falou sobre tudo. Esporte, política, economia, sociedade, tendências, abstrações e inquietações humanas, religião, poesia, arte. Talvez esse espaço seja uma extensão da minha mente, e os textos não são outra coisa que não meus pensamentos. Pensamentos de alguém que se depara com um mundo grande e grita, ou melhor, escreve. Talvez se Drummond vivesse os dias de hoje, faria a sua poesia assim:

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.

Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento a internet, me exponho cruamente nos blogs:
preciso de todos.

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