segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Cálculos Geopolíticos

A euforia que irradiava da praça Tahir no Egito era comemorada por intelectuais. Críticos do capitalismo abraçaram o movimento por democracia nos países islâmicos, batizando-o de “primavera árabe”. Junto dos Ocuppy de Wall Street e da Espanha, o mundo estava tomado por uma aura de mudança, e a brisa de novos tempos soprava leve.

As ditaduras árabes estavam ruindo, era fato. E então Europa e Estados Unidos coraram de constrangimento diante dos acontecimentos. Os EUA apoiavam o governo militar de Hosni Mubarak no Egito, assim como a Itália tinha bom relacionamento com Kaddafi e a Líbia. Não era mistério o déficit democrático sob a ditadura de Mubarak, nem as atrocidades e perversões cometidas por Kaddafi. Mas de resto, o Oriente Médio convivia em estabilidade política, e os contratos econômicos eram respeitados. Daí o apoio dos países do Ocidente.

Quase um ano já se passou desde as duas maiores vitórias da “primavera árabe”. No Egito, as primeiras eleições democráticas ficaram entre um ex-ministro de Mubarak e a Irmandade Muçulmana, partido islâmico radical. Venceu o islamismo radical de Mohamed Morsi, que aos poucos vai mostrando seus instintos autoritários. Além disso, após a queda de Mubarak minorias religiosas, como os cristãos, começaram a ser perseguidas.

Ditador por ditador, é melhor se contentar com aquele que fique quieto em seu canto. Eis algumas premissas dos cálculos geopolíticos. Cada nação defende seus interesses, que dizem respeito basicamente à segurança política e econômica. Ninguém comemora a eleição de um Morales ou de um Chávez, que persistem em seus ímpetos nacionalistas, violando contratos já firmados e estatizando qualquer coisa que venha de fora.

A ONU, aliás, insiste no princípio da autodeterminação dos povos. Cada país é soberano para escolher seus governantes. Se querem ditadura, que seja. Se querem viver meio século no atraso de fundamentalismos, que vivam. A intervenção internacional só se faz necessária quando a luta interna pelo poder incorrer em violações aos direitos humanos. Aí sim, não dá para assistir a tudo de braços cruzados, como o mundo fez com Ruanda em 1994.

É esse pragmatismo que se deve ter quando se fala de relações internacionais. Pragmatismo que indica que países não são os salvadores de outros países, e que é válido o apoio estratégico a algumas ditaduras inofensivas ao mundo, embora nocivas à população interna, quando se tem do outro lado ditaduras perigosas. Que fique o exemplo da primavera árabe, movimento que o mundo aplaudiu e apoiou, e que no fim produziu apenas os espinhos ao invés da flor. Um protótipo de ditador no Egito zomba dos que justificam intervenções internacionais em busca de melhoras sociais.

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