sexta-feira, 14 de junho de 2013

O tempo da eternidade



Eternidade. Às vezes essa ideia me assusta. Digo ideia porque é isso o que ela é, uma vaga ideia, uma conjectura que o espírito humano faz dos tempos sem fins. Mas a eternidade ganha concretude pela argamassa da fé, que vai dando a noção do belo monumento que se formará afinal de contas.

Passar a eternidade no céu, ou no paraíso como em algumas traduções, que sonho! Quando se fala em “paraíso”, muitos pensam naquela linda praia “paradisíaca”. Não há nada de errado. O céu não será tão diferente. Teremos então a plenitude da beleza, o esplendor de uma nova criação e toda a glória do criador diante de nós, sem intermediários. Se a sensação boa e gostosa de andar numa praia, o vento suave no rosto, o sol brilhando no mar, a vastidão de um céu azul e o bem estar desse conjunto nos faz chamar essa experiência de paraíso, é porque o verdadeiro paraíso será muito melhor. Se nos contentamos com parte, imagine com o todo.

Pensar em eternidade traz agonia a alguns. É aquela impressão de que o tempo não passa, a ideia de que o que é bom deve sempre deixar um gostinho de quero mais. Talvez seja até legal no primeiro mês, no primeiro ano ou no primeiro século, mas e quando passarem os milênios? Será que não haverá chatice e marasmo? Olhar para frente e saber que nada ocorrerá de diferente nos próximos cem mil anos... É, confesso que isso assusta. Inclusive é o argumento de muitos para louvar a finitude da vida e gozá-la até as últimas consequências.

E no entanto, que grande erro é pensar assim. O que é eterno está fora do tempo. Não haverá relógios girando sem parar, nem se ouvirão as badaladas dos sinos a indicar as horas; não se escorrerá areia da ampulheta nem os anos serão riscados do calendário. A eternidade será um eterno presente, sem passado nem futuro. Lá, as coisas são o que são, sem variações. Claro que deve haver mobilidade, dinamismo, movimento, mas o estado de tudo não se alterará. A alegria, a justiça, a beleza, o amor estarão presentes em sua inteireza, em sua completude.

Mas arrisco um palpite quanto ao tempo em que a eternidade englobará o tempo. Acho que será para sempre cinco horas da tarde. Sim, logo após o fulgor da tarde e na iminência do pôr do sol. Naquela hora em que o grande astro ilumina mas não queima. Naquela hora em que a gravidade perde sua força e o ar fica mais limpo. Quando os feixes de luz solar atravessam o céu como numa grande bênção do criador. E as cores todas ficam vivas e tingidas de ouro.

Acho que na eternidade será para sempre cinco horas. Será como viver o fulgor e a maravilha de um pôr do sol que não terá fim. A noite não virá. Nem virá o frio. A beleza estará para sempre em seu estado total, visível, tangível. O artista não dependerá de momento ou de ângulo certo para capturar o encanto das coisas; bastará existir. Bastará viver e ver a imensidão de tudo o que é perfeito compondo um conjunto magistral, absoluto, eterno.

Claro, na eternidade já não existirá o tempo. Mas penso que quando o tempo foi criado, o criador pincelou o fim da tarde com a tinta da eternidade. 

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