terça-feira, 8 de dezembro de 2015

8 de dezembro

No amanhecer da república, o marechal Floriano Peixoto comandava o Brasil num período turbulento de revoltas regionais quando a capital do país foi sitiada por navios de guerra. Era 1893, e um levante da Marinha cercou a cidade do Rio de Janeiro com canhões apontados para a Baía de Guanabara.

Diversos tiros chegaram a ser disparados. Mas a população parecia não ter consciência da tensão que ameaçava as estruturas do país. Os cariocas brincavam com as balas de canhão que rolavam pelas ruas. Quem passava procurava logo encontrar seu projétil para levar de recordação. Até mesmo a guerra era ocasião para festa popular, para as piadas e troças.

O 8 de dezembro de 2015 amanheceu nesse clima. O impeachment aberto contra Dilma começou morno, mas a carta-bomba de Michel Temer inflamou o cenário do país. Há uma guerra silenciosa travada nos bastidores de Brasília. E os brasileiros continuam fazendo carnaval de tudo, seja com balas de canhão, seja com desabafos políticos. A criatividade e o humor do povo cuidaram de fazer da carta de Temer fonte de piadas, de paródias e memes. Bastante engraçados, por sinal.

Mas a sedução do poder é coisa com que não se brinca.

Aliás, foi a segunda tentação de Cristo no deserto: “se me adorares eu te darei todo o poder e o esplendor dos reinos do mundo”. E eis que o deferimento da procedência da denúncia contra Dilma despertou toda sorte de aspirações e expectativas relacionadas ao poder, fato que tomou conta de grande parte dos políticos nesse dia 8.

Durante a tarde, foi deflagrado o movimento para destituir o líder do PMDB, o governista Leonardo Picciani. Por volta das 17h, iniciou-se a votação da comissão especial do impeachment. O plenário fervilhava com a tensão do momento.

A oposição conseguiu apresentar uma chapa alternativa. O presidente Eduardo Cunha determinou que a votação seria secreta. Justificou o procedimento invocando analogia com as eleições da Mesa e dos presidentes de comissões. A balbúrdia se instalou. Governistas protestaram indignados com o escrutínio secreto, sabendo que sob o segredo das identidades, as traições começariam já naquela noite.

O PCdoB ingressou com uma ação no STF contestando o procedimento, e a tática dos governistas foi estender o processo de votação para que uma possível liminar chegasse antes de encerrada a votação. Houve quebra de cabines, empurra-empurra, briga entre Mario do Rosário, Heráclito Fortes e Paulinho da Força.  

Ocupando a parte central do plenário, os favoráveis ao impeachment agruparam-se com fervor militar. Tal como uma centúria romana, fixaram sua posição para o combate e passaram a entoar gritos de ordem. Enquanto isso, o governo visivelmente se desmobilizara. O cheiro da derrota já era sentido no quartel-general governista, localizado na parte esquerda do plenário. Deputados petistas votavam e deixavam as fileiras do combate cabisbaixos; muitos preferiram, como desertores, observar a batalha de longe.

Um a um o número total dos votantes ia aumentando no telão. Chegou-se à marca de 467. A oposição gritava entusiasmada gritos como “Chapa 2”, “Fora, Dilma”, e “O japa vai te pegar”. Uma grande bandeira do Brasil foi levantada, como o estandarte do batalhão. Levantou-se, também, o pixuleco – a imagem do Lula aprisionado – já símbolo da revolta.

Chegou-se a 470 votos. O plenário mal se cabia de tanta gente. Quando Eduardo Cunha informou que ia encerrar a votação, um silêncio aterrorizante inundou a Casa. Todos só tinham olhos para o resultado que ia aparecer no telão, e que poderia mudar os destinos da nação.  

A vitória estrondosa da oposição selou a primeira derrota de Dilma na guerra do impeachment. Deputados gritavam de felicidade e se cumprimentavam pelo resultado. No front do governo, tentou-se levantar uma grande faixa com os dizeres “Não vai ter golpe”. E não houve melhor símbolo da derrota do que esse. A faixa mal se segurava em pé por falta de deputados que a sustentassem, de modo que se tornou bastante difícil ler o que nela estava escrito. Entrementes, o hino nacional era entoado com vigor pelos deputados oposicionistas, como se fossem sair em marcha a partir dali.

Vencida a batalha, tratava de estudar os próximos movimentos desse jogo nervoso e complexo. O passo seguinte: a derrubada do líder Picciani. Deputados peemedebistas confabulavam sem medo e sem receio de serem ouvidos que a vitória da chapa 2 dava fôlego para contestar a liderança do deputado carioca.


A sorte estava lançada.

Nenhum comentário: