quarta-feira, 22 de junho de 2016

Jornada de uma vida

Assistir um filme, ler um livro, ouvir uma história, torcer para um time. A necessidade que todos temos de deixar de lado a aridez de nossa própria realidade e nos transformar, por alguns momentos, em espectadores de outro enredo. Algo que nos capture sem que seja a nossa própria vida. Algo que nos anime sem que seja nossa própria rotina. Algo que nos inspire, que nos envolva, que projete em nós sentimentos e toque nosso interior vindo de fora.

A contemporaneidade apenas reforçou essa nossa posição de plateia de vidas alheias. E é com ritmo mecânico que entramos numa sucessão de grandes estreias ou encaramos maratonas de seriados para viver cada dia uma nova história. E é com avidez na busca pelo entretenimento que a vida dos outros, e não a nossa, passa a ser um passatempo interessante de assistir, seja em reality shows ou em redes sociais. É da nossa natureza.

O distanciamento entre artista e plateia, porém, não permite que o espectador participe ou altere a trama. Por mais envolvente que seja, o roteiro apenas traça linhas de uma história distante, cujos laços com a nossa vida são apenas ilusórios. 

Mas há uma história que supera todas as demais. Uma situação que nos faz assistir com deslumbre um enredo fantástico ao mesmo tempo em que nos possibilita participar ativamente de seu desenrolar – acompanhar a jornada de uma vida, o resplandecer glorioso de uma vida se desenvolvendo. A dádiva divina da paternidade.

Após meses de expectativa, a grande estreia vem arrebatadora. Um choro rompendo a escuridão do ventre e o fôlego da vida fazendo o corpo palpitar aqui fora. Inicialmente, o estranhamento com uma miríade de cores e formatos e cheiros e sons, todos novos, levando ao recurso do choro interminável. E também a fadiga com a nova rotina do lado de fora do útero; afinal, nascer cansa, por isso o corpo se aninha em um tranquilo e gostoso sono.

Os dias se sucedem lentamente como num universo etéreo, onde o próprio tempo parece amainar-se em reflexão e a realidade parece pulsar no compasso do novo acontecimento. As primeiras linhas de uma história real sendo escritas diante de nós. Quanto fascínio nessa possibilidade de acompanhar de perto cada movimento, de olhar as belas nuanças do corpo, de enxergar os detalhes das unhas, o formato dos dedos, a cor dos olhos, o sangue novo correndo nas veias que se avistam debaixo da fina pele, a ligação instintiva com o colo materno, os braços sendo domados aos poucos pela mente.

Quanta alegria, e também medo, em saber que desempenharemos papel de destaque nessa nova história. Exercer o ofício de cuidado, vigilância e educação, a fim de capacitar o novo ser a se tornar uma pessoa íntegra e preparada para a vida. Esse papel que nos cabe não será a mera representação de um personagem, mas uma atuação real, já que de agora em diante o papel que nos cabe nessa trama será incorporado definitivamente a nossa própria identidade. Nossas vidas se entrelaçam de modo inseparável.

A dupla tarefa de assistir e participar de uma vida. No começo, a confusão de troca de fraldas, noites insones, adaptação da casa e alteração da rotina acentuam o caráter da participação, intensa participação dos pais na vida dos rebentos, podendo fazer com que deixemos passar batido a beleza da história que se desenlaça bem à vista de nossos olhos. Mas a distração é passageira. Não há como não se encantar com a jornada da vida.

Ver os olhos atentos aprendendo e apreendendo o mundo. A consciência se formando. O raciocínio aumentando em capacidade. As emoções se expressando em instinto e depois em vontade. E afinal, como num clímax de um despertar da aurora, um sorriso desabrochando em fartas e gostosas bochechas. Lindo sorriso sem dentes. Sons puros de uma risada que emana da própria alegria enquanto categoria metafísica. Linguagem universal que é comum a todos os povos e culturas.

O esforço da garganta para produzir sons e se comunicar. A imitação graciosa do movimento da boca dos outros. O balbuciar gradativo de sílabas repetidas. Até que num pico de enternecimento os lábios cerrados se abrem e fecham em um doce “ma-mã” ou “pa-pa”.

Pouco a pouco as pernas se firmando, o passo sendo dado, o mundo sendo descoberto. Cada amanhecer traz uma nova descoberta, e cada noite vai virando a página de mais um dia escrito no livro da vida. O capítulo inicial é do mais elevado primor literário. Os dias no calendário são novidade para a nova vida, até que se completa o concerto das estações, até que o primeiro ciclo se finda e o ano é comemorado. Se Deus permitir, ainda muitos outros virão pela frente.


Mais do que qualquer outro roteiro, esse nos encherá os olhos de lágrimas, aquecerá nosso coração, e nos trará graça ao cotidiano. A história está apenas começando, e nela ainda teremos profícua participação. 

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