quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Capitão Fantástico - ode ao humanismo

Contém spoilers



Quem assiste o filme dirigido por Matt Ross e lançado em 2017 tem de início um estranhamento com a disciplina de exército empregada por Ben Cash, interpretado por Viggo Mortensen, na criação de seus filhos. A hora sagrada dos treinos, a exigência nas leituras diárias ao pé da fogueira, a brutalidade na caça e na morte dos animais, são atitudes que chocam o telespectador no conforto de sua poltrona.

O filme avança, no entanto, criando um clima de empatia com a família Cash, seja pela trilha sonora heroica, seja pelo abuso de cenas de comunhão familiar. Chega em alguns pontos a parecer um dramalhão, como na cena da cremação do corpo da mãe.

Como resultado final, Capitão Fantástico entoa uma ode ao humanismo, em uma caracterização exagerada e ingênua.

Mistura os ideais de Platão, Rousseau, Marx, Chomski e Benjamin Spock para apresentar o protótipo da família perfeita – ou pelo menos das crianças perfeitas. Crianças criadas em contato direto com a natureza, sem as convenções e prisões da sociedade. Educadas a partir de pensadores progressistas. Pais que não temem apresentar aos filhos conceitos mais profundos, que não escamoteiam a realidade em eufemismos desnecessários, mas se lançam bravamente na educação dos filhos com as armas afiadas do conhecimento humano.

O que se pode esperar de seis crianças que são criadas por seus pais isoladas do resto da humanidade em uma floresta, que não frequentam a escola, que passam o dia em treinamentos e estudos exaustivos e que desprezam os valores convencionais? O resultado é surpreendente:

Falam vários idiomas, tocam instrumentos e cantam bem, tem erudição para apreciar música clássica, desprezam os prazeres fúteis (como as marcas Nike e Adidas), possuem corpos melhor desenvolvidos, leem Dostoievski e Nabokov com fluidez, estudam de física quântica a botânica, tem grande apetite para o conhecimento, citam filósofos, meditam e mantém uma espiritualidade sadia, não criticam os outros em público (a não ser os cristãos), detém argúcia suficiente para entender as relações políticas, o mais velho foi aprovado nas melhores universidades do país, a mais nova discorre tranquilamente sobre o Bill of Rights e transborda em conhecimento sobre cidadania.  

Eis um compêndio das virtudes possíveis da humanidade! Com muitos clichês, risadas, abraços fraternais, menininhas fofas, jovens vencendo dilemas com heroísmo e stomps.

Tem-se, em síntese, crianças que refletem o ápice da raça humana. Meninos e meninas que mostram que a iluminação do conhecimento secular, o contato com a mãe natureza e o desenlace das amarras sociais são condições necessárias para nos levar, seres humanos, a um patamar mais elevado na escada da evolução.

Em contrapartida, os humanos apegados aos padrões socialmente estabelecidos são em tudo inferiores. Os meninos da cidade, como os primos, cultivam hábitos pouco saudáveis, são mimados, quase ignorantes, não gostam de aprender; já os pais protegem os filhos de conceitos difíceis, os avós se refestelam em um “luxo desnecessário” ou “riqueza vulgar”, e todos se afogam nas águas sufocantes das “religiões organizadas”, que servem apenas para impor medo e granjear a obediência cega.

Que barroco contraste entre esses dois mundos, entre essas duas criações.

No final, vence um meio termo quase forçado, tanto quanto a fuga das crianças no ônibus. Sim, criar os filhos longe da escola, no meio da floresta, é arriscado. Um humilde Ben, agora sem barba, assim conclui, e volta a morar em uma fazenda, matriculando os filhos na escola.

E é numa apoteose em nuança amarelada, quase etérea, com trilha emotiva ao fundo, que as irmãs correm abraçadas após colher verduras no quintal e ovos na granja adaptada, que os outros irmãos estudam avidamente com gosto pelo conhecimento, que o pai contempla a prole orgulhoso, que a família se senta à mesa unida para um café da manhã natural, e que o ônibus escolar afinal chega.

A mensagem é clara: não seja um maluco que cria seus filhos alheios no interior de uma floresta. Mas unir o mínimo de obrigações sociais (como ir à escola) com esse estilo de vida, é possível e desejável, vide a lista imensa das qualidades e virtudes das crianças.

O ponto mais sensível desse elogio gritante ao modo alternativo de criação de filhos é a premissa que lateja subjacente a todo filme – a autoridade do pai em educar os filhos segundo acha melhor. É com base nesse pressuposto que as crianças obedecem, que o pai alcança a disciplina e que pode desafiar avós e até o Estado.

De onde viria esse direito natural dos pais em educarem seus filhos? Segundo os autores citados pelo filme, não há qualquer base para uma moral universal, então esse pretenso direito não subsiste logicamente. Mas mesmo se aceitarmos tal premissa como válida – Ben Cash tem o direito de criar seus filhos como julgar melhor – então nos encontramos com a incômoda necessidade de aceitar outros pais que também fazem o mesmo.

Mas seria possível aceitar um cristão fazendo o mesmo, criando seus filhos longe da civilização, no meio do nada, apenas baseado na palavra de Deus? E um árabe exercendo tal direito? Nesses dois casos, o exercício legítimo da paternidade na criação dos filhos seria taxado como alienação, lavagem cerebral, e provavelmente haveria protestos de ONGs pedindo a intervenção do Estado para acabar com esse cárcere doméstico.

Em um caso, a educação alternativa é bela e produz resultados louváveis com crianças super desenvolvidas; em outro caso, essa educação alternativa é uma prisão que produz crianças alienadas e perigosas. Quem pode julgar esse impasse, ou melhor, quem diz o que é legítimo ensinar num sistema de criação de filhos alternativo? O Estado? Os filósofos? Hollywood?

A principal falácia do filme é não ter base filosófica para justificar a autoridade dos pais sobre os filhos, nem para justificar que só há “um jeito certo de ser alternativo”, por paradoxal que possa parecer.

Ademais, os dramas da criação excêntrica, na floresta, longe dos confortos e dilemas urbanos, são poucos e rasos no filme. O filho mais velho que não se dá muito bem com mulheres, o do meio que tem rompantes de ter uma vida normal como os outros, e os machucados de sua filha. Parece que o filme adota clara postura de não explorar os dramas da situação, tecendo, ao contrário, um elogio à criação humanista.

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