segunda-feira, 13 de março de 2017

Salvo-conduto para vascaínos


Troca-se de tudo hoje em dia. Profissão, cônjuge, casa, partido político, operadora de celular (bendita portabilidade) e até sexo. Reflexo talvez da modernidade líquida, para usar a expressão da moda, comum a partir dos livros de Bauman.

Há, no entanto, uma mudança jamais aceita pela nossa sociedade, que é a mudança de time. Não se ouve de ninguém que, tendo torcido por quinze anos para o Cruzeiro, agora mudou para o Palmeiras. Isso é impossível. No máximo, existe a concessão regional: torço para o Cruzeiro, mas simpatizo com o Palmeiras em São Paulo. Nesse caso, não há mudança, mas incorporação.

A escolha do time é talvez a primeira grande decisão da vida do menino. Agitado pelos vitoriosos do momento, o garoto compra a camisa do último campeão brasileiro, gosta do vencedor da Copa do Brasil, e se maravilha com a torcida do campeão estadual. Isso sem deixar de torcer para o time do pai.

Chega uma hora, porém, em que a escolha deve ser feita em definitivo. Cada família coloca seu prazo final, mas em geral ele não passa dos dez anos. É um ritual de passagem: agora, meu filho, chegou o momento de escolher seu time, sua torcida, sua paixão no mundo da bola, pense bem, pois essa decisão não tem volta e o acompanhará pelo resto de sua vida.

Dos vários tipos de infidelidade, talvez o mais repudiado socialmente seja o do vira-casaca. O sujeito que troca de time depois de atingir a idade da razão. Tipo abjeto, fraco, que se ilude pelo vencedor do momento e abandona sem pudor o time de sua infância. Merecedor de todo o tipo de escárnio de amigos e conhecidos.

Devem-se respeitar as tradições.

Mas sugiro aqui uma quebra parcial de paradigma. Proponho concedermos um salvo-conduto para que vascaínos mudem de time. Uma janela de transferência, um passe livre temporário para que os amigos cruzmaltinos possam – sem acusações, sem constrangimentos, sem hostilidades – escolher outro time para torcer. Inclusive, seria de bom alvitre se cada um pudesse dar as boas-vindas aos vascaínos, convidando-os, cada qual, ao seu respectivo time.

Acolher vascaínos é medida humanitária, à semelhança dos refugiados de guerra. São todos vítimas das circunstâncias. Mas se há problemas políticos e econômicos em receber refugiados nos países ricos, não há nenhum óbice ao acolhimento de vascaínos nos diversos times grandes do Brasil.

Como não se compadecer de torcedores que cantam, em seu grito de guerra mais famoso, sobre um “gol do Juninho no Monumental”, em 1998 (estamos em 2017!)? Três vezes rebaixado à Série B do Brasileirão nos últimos dez anos. Administração falida. O eterno vice. O Vasco da Gama se transformou em um pseudo-time, certamente um ex-grande do futebol brasileiro.

Os estaduais dos últimos anos não contam. Primeiro porque carioca não pode entrar na contabilidade dos campeonatos importantes, por razões evidentes. Depois porque foram meros deslizes em uma trajetória constante ladeira abaixo. Sobressaltos de fôlego em um doente terminal.

Alguém pode querer estender a medida aos botafoguenses. Não abramos concessões demasiadas. Os casos são diferentes.

O botafoguense é um torcedor apaixonado, embora quase sempre sofredor. O botafoguense se empolga com seu time, lota o aeroporto para receber Seedorf, cria gritos de guerra novos e vive na expectativa de contratações internacionais que resolverão o problema de elenco. Por diversas vezes possui um time bem armado, que joga bem, mas falha nas horas decisivas. A carência de títulos importantes remonta ao Túlio Maravilha de 1995. Por isso o Botafogo não entusiasma novas gerações, e está fadado ao definhamento natural quando envelhecerem seus torcedores atuais. Mas ainda assim o botafoguense torce, acompanha seu time e vibra com o futebol.

Bem diferente é o vascaíno. O vascaíno é um torcedor que não torce. É alguém que foi aposentado compulsoriamente do futebol. Às vezes triste, às vezes cabisbaixo, mas sempre indiferente.

Os mais persistentes deram de torcer para times internacionais a fim de preencher a carência: Real Madrid, Chelsea, Inter de Milão. Outros debandaram para esportes diversos, assistem NBA e fingem empolgação com o Super Bowl. Mas a maioria virou aquela espécie de desinteressado da bola, que “torce para o Brasil”, e ainda assim só na época de Copa do Mundo.

O problema é que os vascaínos gostam de futebol, e não mereciam estar nesse estado indigente. Andam pelos cantos, tímidos, desalentados. Em roda de conversa entre amigos, o vascaíno é aquele que ri, que ouve os papos de futebol, mas não se atreve a ir além, a comentar, a defender seu time. Tampouco tem ele autoridade moral para pilheriar com a derrota alheia.

Quarta-feira à noite o vascaíno liga a TV, vê o gramado verde e a bola rolando, e sente algo de bom dentro do peito – alguma reminiscência longínqua o lembra de que ele já foi feliz no futebol. Mas logo ele é trazido à dura realidade. E já não se encontram mais de três vascaínos que se reúnam para ver algum jogo do gigante da colina – não é mais atração.

A bonita camisa com a faixa vermelha pode até ser usada, mas não mais como estandarte da vitória. A última vez que os vascaínos saíram de casa orgulhosos com a camisa foi após ganharem o carioca de 2015, com a campanha “o respeito voltou”. Terminaram o ano rebaixados no Brasileirão.

Mas a situação pode mudar. Se o salvo-conduto for concedido, em breve poderemos ver amigos e parentes precocemente aposentados do futebol sorrindo novamente, frequentando estádios, participando de conversas e sentindo orgulho de seus times.


Os estaduais estão se encaminhado para o fim. Depois vem o Brasileiro. Concedendo-se o salvo-conduto, os vascaínos teriam até lá para escolher novo time, e começar o campeonato já de camisa nova e ânimo novo. Espero que todos apoiem a ideia. 

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