sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Um Comércio de Natal


Não precisamos temer o escuro, pois o caminho é iluminado com luzes de Natal.
(N.D. Wilson)

A noite está mais iluminada. Não que seja lua cheia, ou que estejamos no verão em São Petersburgo, com suas noites brancas como disse Dostoiévski. O que ilumina a noite são as luzes de natal. É dezembro, e o pisca-pisca vai fazendo a cidade cintilar com essas pequenas estrelas de LED, luzindo casas, prédios e lojas, o que me acende a lembrança de que tenho de providenciar os enfeites lá de casa.

Monto a árvore e procuro o pisca no armário. Lá está ele, cuidadosamente guardado para essa única ocasião do ano. Desembolo os fios enquanto ouço de longe a televisão. As propagandas todas remetem ao tema natalino. O Papai Noel quase não sai da tela. Entre liquidações de fim de ano e saldão de natal, alguns comerciais cuidam de ilustrar com a neve e a lareira que não temos o tal espírito natalino.

Ligo o cabo na tomada. Que pena: várias lâmpadas queimadas. Saio de casa para comprar outro pisca e vejo que a vizinha já pregou sua guirlanda na porta, e aqui ainda estamos com uma entrada lisa como se fosse março ou agosto – mas é dezembro.

As lojas mergulham em vermelho e verde, ursos, renas, presépios e luzes das mais variadas. O comércio vibra com a ocasião. Compro um novo pisca – e espero que dure por uns dez anos. Não achei a guirlanda, mas garanti o panetone e o presente do amigo-oculto. Volto para casa com o pisca, o panetone o presente e um folder promocional com desenhos do Papai-Noel.

O natal: “virou comércio; marketing; dinheiro; desvirtuou-se do sentido correto”. Todo ano ouço tais alegações. Que foi adaptação de festivais pagãos em Roma em uma união sincrética com o cristianismo. Que Papai Noel é São Nicolau transformado em ídolo consumista. Que a data foi criada para aquecer o comércio no fim do ano.

E quer saber? Que bom contar com o adorno do comércio para data tão especial. Ele enfeita as ruas, colore a cidade, ilumina a noite, cria um clima terno, espalha generosidade e vai preparando o coração para o dia vinte e cinco. São as luzes dos shoppings, ainda em fins de novembro, que lembram que é chegada a época natalina.

Se em alguns corações a luz do pisca-pisca ofusca a estrela que brilha em Belém, a solução não é fechar os olhos ou desligar a energia, mas convidar todos a elevarem as frontes para o alto, ouvir os anjos cantando e ver que há um caminho de paz.

Aliás, não fossem os sinos a retinir e os hinos a tocar em cada jingle comercial, o clima e a expectativa para o evento não seriam tão bem construídos. Não fosse o esmero dos lojistas em criar lindas decorações com laços vermelhos e luzes coloridas, acho que nunca seria incentivado a pregar um único enfeite lá em casa. Não fossem a neve caindo e a lareira acesa nos filmes da televisão, talvez não cultivasse tão fortemente esse sentimento de aconchego e de união familiar.

Como poderia idealizar uma bela ceia com mesa farta não fossem as propagandas de Chester e os anúncios de supermercados? O que seria de dezembro sem os comerciais da Coca-Cola, de um primor estético tão envolvente? O que seria da minha rua lá embaixo não fosse o caminhão da Coca-Cola passando todo ano e fazendo a alegria da criançada?

E quem liga que não foi precisamente no dia vinte e cinco de dezembro? Importa reunir a família e reverenciar a ocasião: o evento glorioso que dividiu a história, a noite onde anjos cantaram e onde o infinito vestiu-se de carne, viveu entre nós e habitou entre nós.

Se há interesses comerciais, se há presentes, que venham todos e sejam depositados aos pés da manjedoura.

Que a noite de natal tenha presentes, sorrisos, Coca-Cola, luzes, enfeites, árvores, guirlandas, ceias saborosas, panetones, Papai-Noel. Que o palco se arme com todos esses enfeites para criar a maior das festas. Eles não são necessários, é verdade, mas eu tenho para mim que eles deixam o evento ainda mais bonito e a noite ainda mais clara, pois assim como bolas douradas adornam um rígido pinheiro, esses ornatos embelezam a madeira úmida da manjedoura.

Sinos tocam em algum comercial da televisão. A casa já está devidamente decorada, a árvore está montada e as luzes piscam. Os convidados chegam felizes, trocam sorrisos, abraços e presentes. A mesa está sendo colocada, e tem coisa boa vindo da cozinha.


A ceia é vistosa e a noite agradável. É possível ouvir o choro de um bebê, tão leve como um estrondo que sacode a terra e abala as fundações do universo. Como não celebrar com o melhor que temos? Comamos e bebamos, porque hoje, no natal, viveremos.

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