quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Black Mirror: esboço de uma religião

Ao fim da quarta temporada, Black Mirror perde um pouco do fôlego em surpreender o telespectador. Vários temas se repetem, e é possível divisar duas categorias de episódios da série.

A primeira parte dos episódios problematiza o uso da tecnologia nas relações humanas, explorando tecnologias atuais, expandindo-as, e levando os conflitos até as últimas consequências. São pequenos contos viscerais, alguns macabros, que parecem apontar para um futuro próximo.

Abordam temas cotidianos com o tempero de um surrealismo que, embora irreal, não parece tão distante: a volatilidade da opinião pública (Hino Nacional e O Momento Waldo); a angústia e o sofrimento se tornando entretenimento (Hino Nacional, Quinze Milhões de Méritos e Urso Branco); o registro ilimitado da memória (Toda a Sua História); as relações sociais frágeis e fingidas com filtros de redes sociais (Queda Livre); a maternidade cada vez mais controladora (Arkangel); a tecnologia servindo legal ou ilegalmente para expor segredos íntimos (Manda quem Pode e Crocodilo); e o caso dos haters (Odiados pela Nação);

Outra parte dos episódios, no entanto, deixa os problemas para focar na solução. Se a tecnologia pode nos destruir enquanto espécie social, ela também será a única que poderá nos redimir. Essa categoria de episódios aponta para uma espécie de culto materialista com base em uma indagação central: o que é a vida?

Segundo a ótica cristã, a vida humana é o conjunto formado por corpo e alma. Há a matéria, um coração pulsando, sangue correndo, e sinapses sendo formadas nos neurônios. Mas não só. Há também a alma, elemento que dá ânimo à carcaça corporal, que lhe confere dignidade e que atesta que o homem é uma criação divina.

Já para o materialismo – a crença de que existe apenas a matéria, aí incluindo-se existencialistas, pós-modernistas e ateus – a vida não é mais que o funcionamento regular da atividade cerebral. Não há base moral nem muito menos física para diferenciar a vida de um homem da de um macaco, se ambos possuem cérebros.

Mas o ponto é outro. O ponto é que a consciência cerebral, o emaranhado de memórias, desejos, preferências e valores, pode ser considerado um sucedâneo do que chamamos de vida. Não existe alma, existe matéria, existe um arranjo mais ou menos ordenado de elementos químicos e impulsos elétricos que compõe memórias e desejos e cujo conjunto forma uma personalidade. A vida é apenas um chip individualizado.

E se conseguíssemos fazer o download dessa consciência?

Ou seja, e se conseguíssemos extrair a “vida” do corpo e levá-la para outro lugar? Alguns episódios da série exploram problemas associados a essa possibilidade, como o aprisionamento dessa consciência em objetos (Black Museum), ou o uso utilitário da consciência de clones reais ou digitais (Natal Branco e Hang the DJ). Mas é em Volto Já, San Junipero e USS Callister que essa ideia ganha contornos positivos para apresentar-se como o evangelho do materialismo.

Se a consciência pode ser prolongada pela tecnologia, então é possível criar um universo de acordo com as próprias preferências, onde essa consciência vive, comanda, escolhe diferentes corpos e diferentes histórias para se entreter. Eis a concepção secular do que seria céu ou paraíso.

O materialismo sempre vociferou sua crítica de forma contundente, mas nunca colocou nada no lugar da redenção. Fortes em desconstruir a narrativa cristã, os materialistas só conseguiram prometer uma liberdade que é mais uma condenação (parafraseando Sartre) do que uma libertação.

A liberdade da vida como acidente cósmico a vagar pela vastidão do universo não é lá uma ideia atrativa, pois não há propósito nem salvação neste mundo frio. Nem a popularidade de Carl Sagan ou a jornada evangelística e “delirante” de Richard Dawkins conquistaram muitos adeptos para abraçar essa ideia. Mas a crítica da narrativa cristã feita pelos materialistas, entretanto, essa possui certo apelo popular ao desafiar a autoridade de Deus: à semelhança do episódio USS Callister, estamos em um mundo criado por um deus ressentido e caprichoso, a quem devemos agradar atuando em papeis falsos, temerosos de castigos que possam nos atormentar pelo resto da eternidade. Não há escapatória.

Mas e se houver saída? É precisamente esse o ponto em que a crítica materialista e pós-moderna alia-se às promessas da tecnologia e apresenta um facho de esperança.

Os profetas dessa nova religião há muito já têm se animado com a ideia de universos paralelos e realidades alternativas. Veja qualquer documentário sobre o universo na Discovery ou no Netflix, e lá estarão físicos e astrônomos excitados com a ideia de haver, neste momento, universos paralelos onde existem outros eus com vidas diferentes.

Essas crenças não são apenas ficção cultivada por nerds, já que a própria ciência e nomes de peso como Stephen Hawking endossam teorias como do buraco de minhoca, o portal para adentrar outras dimensões, ou outros mundos. Quem sabe se acharmos esses buracos (uma atualização do sistema, segundo o episódio USS Callister), e entrarmos em outras dimensões, talvez descubramos que há outros mundos possíveis fora da metanarrativa cristã.

Mas a melhor alternativa é sermos nós mesmos os artífices do novo mundo, criando uma realidade virtual onde possamos viver como deuses, ou seja, onde nossa consciência, mantida ativa por alguma tecnologia nova, possa comandar e reinar livremente. Sem Deus, o universo permanece um grande espaço vazio e sem propósito, mas agora talvez tenhamos a possibilidade de viver para sempre no céu materialista. A esperança vale o risco da distopia.


Alguns já aguardam a chegada messiânica dessa tecnologia inovadora, olhando esperançosos para a nuvem. Lá em cima, no entanto, há apenas um grande espelho, enegrecido pelo reflexo que faz dos desejos aqui de baixo. 

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